GREGOR E EU (1)

Barata1

Aqueles que me lêem há mais tempo sabem perfeitamente que sou uma pessoa sensata, calma, tranqüila, sem qualquer distúrbio de personalidade além de uma pequena tendência a discutir aos berros com a televisão e, ocasionalmente, atirar pratos de comida na direção do William Bonner. Mesmo assim, só quando provocado.

E se, é verdade, andaram espalhando por aí que cultivo o hábito de dançar pelado pela casa, girando o rodo sobre a cabeça, ao som de Sara Jane, ou que costumo fazer bolinhas de caca de nariz e guardá-las no freezer para depois comê-las, isso são calúnias insidiosas de gente vil e infame. Primeiro, é de conhecimento público que prefiro comer minhas melecas de nariz ao natural. Depois, só um ignorante desconhece o fato de que o ideal é usar uma vassoura para dançar Sara Jane após o banho.

Em matéria de autocontrole, ganho fácil do Dalai Lama e ainda dou a ele dois Lexotan de vantagem. O Chuck Norris não é mais frio do que este que vos escreve diante de perigos monumentais — e olha que eu nem tenho bigode. O Pitanguy não tem a capacidade que eu tenho de pôr os nervos no lugar.

Porém, como todo adulto sadio, há momentos em que me deparo com situações de grande tensão em que qualquer pessoa, por mais brava e destemida que seja, entra em pânico. Por exemplo, quando confiro o saldo da minha conta bancária ou percebo que um vendedor de poesia se dirige a mim num bar. Ou, ainda, se vejo uma barata por perto.

Antes que os mais engraçadinhos se ponham a fazer chacota, esclareço que não estou falando de baratas comuns. E, sim, de uma variante absolutamente letal e ensandecida das mesmas: a barata voadora.

Já falei aqui que a barata voadora, sem dúvida, é uma das responsáveis pela postura ereta do ser humano. Afinal de contas, seria impossível, andando de quatro, pegar o chinelo para matar o bicho — daí nossa espécie ter evoluído.

Não que tenha medo dele. Trata-se de um simples pavor. Coloquemos as coisas da seguinte maneira: imaginem que vocês estão trancados numa sala com quarenta atendentes de telemarketing falando ao mesmo tempo ao pé dos seus ouvidos. Pavoroso. Agora imaginem que as atendentes de telemarketing têm asas, anteninhas, soltam gosma e fazem “fsss, fsss”. Não, esqueçam, a imagem não foi boa. As baratas não falam o gerúndio.

Seja como for, por esses dias, estava eu, serelepe e fagueiro, assistindo à televisão e dizendo poucas e boas à Fátima Bernardes, senão quando, quem entra pela janela da sala, mais soturna que o corvo de Allan Poe?

Isso mesmo, Pavlov não se decepcionaria com vocês: uma barata voadora. E, pior, ela vinha com a cara da minha sogra quando nos visita. Não, esqueçam a imagem mais uma vez. A barata não tinha buço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: