GREGOR E EU (3)

Barata3

Sei que alguns desinformados de pouca cultura militar acharão que minha retirada estratégica para a cozinha tratou-se, na realidade, de uma fuga. A essas pessoas que, a exemplo do gerente do meu banco, me dão pouco crédito, gostaria de dizer que estava apenas imitando o grande Pompeu, em sua retirada para o Egito.

A única diferença é que o general romano primeiro foi a Alexandria e só então perdeu a cabeça, enquanto que eu perdi a cabeça e, com isso, corri desabalado para a cozinha. O que não quer dizer nada, pois todos sabem que a ordem dos fatores não altera o produto. E eu, mais do que todos, pois repeti três vezes a sexta série.

O problema é que, desconhecendo os recentes avanços da entomologia bélica, não contava que a barata em questão fosse teleguiada. Coisa que só descobri quando ela continuou me perseguindo, sem trégua, até me encurralar entre a geladeira e o fogão. Com o que, acabei caindo sentado sobre a válvula do botijão de gás.

Evento este que, sem dúvida, provocou algum sofrimento mas, ao mesmo tempo, me levou a pensar sobre como, mesmo nas situações mais adversas, temos algo a aprender com a vida. Naquele instante, por exemplo, descobri como por encanto a exata etimologia da palavra “encurralar”.

Assim, sentindo uma profunda dor interior, observei quando o blatídeo, num raro momento de lucidez, abdicou de sua superioridade tecnológica e, desistindo de brincar de War II, resolveu me atacar por terra.

Ficamos então cara a carapaça. Apenas quatro palmos nos separavam. Eu não mexia um músculo — não por firmeza de caráter ou coragem, mas porque, como bem explicou Freud, a histeria paralisa os membros do corpo.

O embate tinha todas as características de um duelo. E o ortóptero, cruel, assobiava a musiquinha de “O Dólar Furado”.

— Tudo bem. Eu me rendo — tentei negociar, mostrando minha boa disposição para a paz e a harmonia entre as espécies, afinal éramos dois seres adultos e racionais.

Ele não se moveu, o que interpretei como um bom sinal. Parti então para um explícito oferecimento de propina:

— Minha vida por um quilo de açúcar.

Infeliz idéia da minha parte, pois a barata devia ser estrangeira ou, no mínimo, nunca tinha ido a Brasília. Adepta do estoicismo, ao ouvir a proposta de suborno, partiu em minha direção num avanço mais devastador que o do Exército Vermelho após a batalha de Stalingrado.

— Ai! Ui! Ai! — gritei e corri para a área de serviço, com uns pulinhos que de modo algum decepcionariam o Grupo Gay da Bahia.

Tais berros viris que, caso os senhores não saibam, eram muito utilizados pelos hunos em seus ataques impiedosos, causaram certa confusão às hostes inimigas. Aproveitei aqueles instantes de instabilidade do inseto e, ágil e ferozmente, apanhei a vassoura que estava ao lado do tanque.

De posse do letal instrumento, percebi que a peleja agora se dava em igualdade de condições. O poder subiu a minha cabeça. Vi os louros na minha fronte, vi-me numa biga em desfile triunfal.

— Alea jacta est! — pronunciei, em alto e bom som, erguendo o objeto sobre a cabeça e dando um passo à frente.

E a barata, pelo visto, entendia latim, pois saiu, esvoaçante, na direção contrária.

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