15 DE NOVEMBRO DE 1889

Deodoro

— Aonde o senhor pensa que vai uma hora destas?
— Ai, meus sacos! Vou-me ali fundar a República e volto já, mulher.
— República? Então é este o nome de tua nova amiga?
— Eh! Que amiga qual nada, mulher, a República é um… Ah, deixa lá! Vou derrubar a Coroa. Chegarei tarde.
— E ainda tens coragem de dizer-me que ela é uma coroa, Dedé?! Ai, crime! Ó céus! Como eu sou infeliz!
— Mas tenha santa paciência! Quanto teatro! Ó infeliz, então não sabes que estamos a expulsar o Imperador do país e vamos fazer um novo governo?
— Deodoro, Deodoro, tu não me enrolas mais com estas patranhas, Deodoro! Sei muito bem aonde vais com estes teus amigos, todos fantasiados para o entrudo!
— Fantasiad…? Puh! Aquilo ali é o Exército Nacional, mulher! E está a me esperar. Não te afobes. Verás como…
— Não!
— Larga-me, mulher! Levanta! Solta o meu pé, desgraçada! Os homens estão a me esperar! Deixa-te de cenas!
— Se saíres por aquela porta, Deodoro, nunca mais tornarás a ver-me! Ouve o que te digo!
— Ai, meu São José das Oiças Fechadas, protetor das fêmeas desvairadas! Mulher, escuta cá o que estou a te dizer: a causa da República está a necessitar deste humilde servo.
— Esquece as calças da República e vem cá divertir-te entre minhas saias, Dedé! Vem! Não gostas mais de mim, é isto?
— Estás surda, mulher? Hein? Dize cá: estás surda? Não estás a escutar que falo de uma nova forma de governo? Da res publica? Res publica!
— Aquela vaca!
— Bom Jesus, socorre-me! Será que não pensas em outra coisa na tua vida? Quantas vezes já te disse que não há outra, senão tu?
— Antes não eras assim. Antes me tratavas como a uma princesa! Por que não me tratas mais como a uma princesa, Dedé?
— Queres que te trate como a uma princesa? Então vou enviar-te para o degredo na Europa. Pois é isto que vamos fazer com a família real, assim que soltares a minha perna!
— Agora vives por aí, a brincar de capa e espada com estes teus amigos dissolutos…
— Quantas vezes tenho que te dizer que aquilo lá é o Exército, obstinada?
— Um homem da tua estatura… Às vezes penso em mandar uma carta ao Imperador, queixando-me de ti…
— Manda, mulher. Mas estou a te avisar: vais gastar uma fortuna com selos. Não me ouviste dizer que ele está de partida, hein? Ficaste surda de vez?
— E agora mais esta: uma mulher! Uma tal de Resplúmbea interpõe-se entre nós!
— Repú… Ah, queres saber? Arruma um tigre sobre tua cabeça e vai lançá-lo à praia, ou bem fica-te cá com tuas lamúrias! Preciso ir!
— Não! Volta, Dedé!
— Larga!
— Não! Dedé! Ded… Vai! Vai, sacripanta! Mas fica a saber que estou a fazer feitiçarias contra esta Respúria, ouviste?! Uma preta está a me ajudar! Esta história não tem futuro! Meu santo é forte! Verás como em pouco tempo a Relúbrica entregar-se-á à luxúria e à corrupção! Ficará arruinada e ninguém mais a respeitará! Será mulher de todos e cairá doente, ouviste? Meu santo é forte! Ah, e tem mais: esquece o colchão de penas! Hoje dormirás no canapé!

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