CEM METROS RASOS COM RESSACA

Cemmetros

Não entendo como, havendo esportes olímpicos tão instigantes quanto o jogo de peteca, o softbol e a luta greco-romana (que, como se sabe, é aquela em que vence o competidor capaz de derrubar o outro com o maior número de silogismos), ainda não se inventou algo chamado “cem metros rasos com ressaca a caminho do trabalho”.

Os Cem Metros Rasos com Ressaca a Caminho do Trabalho (ou CRT, para os íntimos) exigiriam dos participantes uma determinação e um controle sobre o corpo só encontrados entre súditos da dinastia Zhou, na China Antiga. Diante dele, o pentatlo não passaria de uma brincadeira sem maiores compromissos, como o cuspe à distância e o mandato parlamentar.

É claro que, a exemplo do futebol e da orgia, o CRT precisaria, antes de mais nada, de um local adequado para a sua realização, bem como aparelhos que a ele dessem suporte. Talvez um grande galpão, escuro, ornamentado com motivos que propiciassem o sono: tons azuis, anjos renascentistas, discursos do Marco Maciel.

Ali, seriam enfileiradas camas confortáveis com colchões d’água e servidos aos competidores litros e litros de cachaça, conhaque, cerveja, além de outras bebidas de difícil qualificação, tipo o gim seco e a Nova Schin. Como música de fundo — e não estou, como alguns poderiam pensar, falando de flatos —, também algo que fizesse os atletas pensar em dormir: prelúdios de Chopin, música new age, comentários do Galvão Bueno.

Nesta primeira fase, pontuariam os atletas que resistissem por mais tempo de pé, bebendo a maior quantidade de álcool. Às cinco horas da manhã, no entanto, todos deveriam ir para as camas. Às seis, seriam despertados com um barulho ensurdecedor: talvez mil despertadores potentes, talvez uma análise política do Alexandre Garcia.

Então, seriam obrigados a se dirigir, o mais rápido possível, ao ginásio de esportes, que ficaria ali ao lado — perdendo pontos todo aquele que metesse a cabeça na parede, vomitasse no carpete, bebesse o conteúdo do colchão d’água ou escovasse os dentes com creme de barbear.

Uma vez em suas marcas e dado o tiro de partida, os esportistas disparariam a toda velocidade na direção de um ônibus lotado, que ficaria estacionado na linha de chegada, distante cerca de cem metros. Após o último competidor entrar na condução, esta daria cinqüenta voltas ao redor do estádio, a 80 km por hora. Ao final das quais, todos seriam imediatamente levados a uma pedreira, localizada nas imediações.

Cumprida esta segunda etapa, em que pontuariam os que tivessem alcançado o ginásio primeiro, bem como os que saíssem do ônibus sem fazer nenhuma referência à mãe do motorista, caberia a nossos heróis usar uma picareta para quebrar o maior número de pedras dentro do menor prazo possível, enquanto num telão seriam projetadas longas tomadas das Cataratas do Iguaçu.

Por fim, seria declarado vencedor aquele que fizesse o maior número de pontos na soma das três etapas da competição. Não valendo, evidentemente, para a contagem, pontos na testa ou em qualquer outra parte do corpo.

O vitorioso seria premiado com uma cesta de aspirinas, além de um transplante de fígado e dez litros de glicose. Mas perderia a medalha caso o exame de urina detectasse o uso de Engov.

Enfim, as regras poderiam sofrer algumas pequenas alterações, como a inclusão de um artigo em que se proibisse amarrar pedaços de carne crua sobre a testa para diminuir os efeitos da dor de cabeça ou, ainda, a obrigação de se ingerir croquete de rodoviária como tira-gosto.

Mas, tudo considerado, acho que já permitem uma reivindicação ao Comitê Olímpico Internacional.

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