BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (4)

Bravo4

Entrei na sala e me apresentei a Rosicléia, a qual, se não pertencia ao astro de onde provinha o outro professor, certamente nascera no mesmo sistema planetário. Só que, feminina, era um pouco mais larga, um tantinho mais alta e tinha mais pêlos no rosto. Ou isso, ou possuía ascendência teuto-portuguesa, não sei.

Entreguei trêmulo o papel a ela, que estava atrás de um balcão, sentada na cadeira de um modo meigo que me fez lembrar o Charles Bronson. Ao me ver, Rosi entortou com candura os cantos da boca, mostrando caninos que, sem dúvida, foram a fonte de inspiração de Bram Stoker. E, afagando com modos singelos a ponta do buço, levantou-se e começou a me mostrar o ambiente.

Vocês, leitores preconceituosos, hão de pensar que a academia de ginástica não é local apropriado para a cultura e a especulação metafísica. Pois digo que estão enganados, ignaros companheiros.

Eu, por exemplo, ao olhar para aquela gente se exercitar arduamente, empurrando ferros com a ferocidade com que Santiago foi ter aos mouros, digo a vocês que imediatamente me dei conta da total falta de sentido da existência. E me convenci de que Sartre não teria escrito “O Ser e o Nada” se, em algum ponto de sua vida, não houvesse tentado a malhação.

Quanto à cultura, seus maledicentes, fiquem sabendo que conheci um sujeito lá que é fazendeiro e possui logo duas: uma de feijão e outra de mandioca. Sem falar de uma moça que já havia lido todas as páginas amarelas de um exemplar de Veja de 1983. E de um garoto que, sabendo de cor a maioria das letras da Kelly Key, caminha a passos largos para, quando menos, fazer crônicas poéticas no Jornal Nacional.

Desinformados que os senhores são, caso também tenham em mente que na academia o repertório musical é dos piores, fiquem cientes de que nunca na minha vida escutei um som tão agradável quanto aquele que lá ouvi, entre o final de uma música e o começo de outra. Um silêncio magnífico, que nem aquele famoso surdo de Bonn seria capaz de reproduzir.

Tudo isso observei enquanto Rosi me apontava as belas máquinas de inspiração huxleyana. Após o quê, gentil e delicada, cuspiu de lado sutilmente e me ordenou que me alongasse antes de iniciar os exercícios. Em seguida, afastou-se e retornou ao seu lugar, ajeitando, cheia de sensualidade, a cueca dentro da calça de malha.

Pus-me a me alongar e a me benzer, pedindo forças a São Balalão da Coxa Tripartida para encarar os aparelhos. E, sem dúvida, teria ficado ali pelo menos mais dois dias, ganhando algum tempo, se não houvesse concluído que a altura de 1,80m à qual cheguei ao final do alongamento fosse suficientemente boa.

Depreendi, assim, ser hora de mostrar meus afamados dotes de atleta. E, com o sentimento do homem que tem um dever a cumprir, com a segurança dos grandes, como César, Alexandre, Napoleão e ACM Neto, me dirigi cerimoniosamente aos halteres, desejoso de dirimir de uma vez qualquer dúvida que pudesse ainda subsistir com relação a minha imensa e inesgotável capacidade física.

Digo aos descrentes e biltres de torpe natureza, que me desincumbi da tarefa com denodo, apanhando não um, mas logo dois halteres, e não de meio, como seria de esperar, mas de um quilo cada, e me pus a levantá-los com destemor.

Ao final de três levantamentos, com quinze minutos de intervalo entre eles, achei que era hora de me arriscar mais. Então, patriota que sou, ingeri dois litros de água, em homenagem ao Amazonas, e caminhei imperterritamente até a esteira ergométrica, sentindo a ambição dos vencedores, o orgulho dos bravos, o poder dos livres e um formigamento nos braços.

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