ESTOU PARANDO DE FUMAR (2)

Fumar2

Como disse um grande sábio, o maior problema de parar de fumar é que a gente não pode fumar um cigarro para passar a tensão que a falta do cigarro provoca. E eu sou uma pessoa ligeiramente tensa. Tanto que só consigo relaxar e dormir após ler algo leve e divertido, como a “Crítica da Razão Pura” de Kant, por exemplo.

Mas, profundo conhecedor da milenar cultura brâmane, domino razoavelmente as técnicas da meditação: esvaziar a mente, não pensar em nada, deixar a cabeça oca. Ou seja, fingir que é a Narcisa Tamborindeguy. E foi isso o que me salvou durante a minha primeira hora de provação sem nicotina.

Tão-logo voltei do hospital, pus-me na posição da jaca (posto que, com a barriga que desenvolvi nos últimos tempos e minha fantástica elasticidade, só conseguiria ficar na posição do lótus com a ajuda de um guindaste e, infelizmente, nós não possuímos automóvel em casa), respirei fundo e iniciei a meditação macunaímica, uma variante que desenvolvi e em que, para maior comodidade, o asceta fica com um olho aberto e outro fechado.

De cima da mesa, o maço de cigarros me olhava sorrateiro e, certamente municiado pelos pérfidos ditos do espelho, juro que o ouvi cantar baixinho: “Free, sempre Free, eu sou Free demais”. Fingi que não era comigo. Ele insistiu:

— Uhm! Que fedor de oxigênio!

Continuei firme, repetindo o meu mantra: “a mercadoria é um fetiche, a mercadoria é um fetiche”.

E digo a vocês, com orgulho, meus caros camaradas, que passei incólume por aqueles primeiros sessenta minutos: sentindo os pulmões funcionarem a pleno vapor, uma sensível melhora no olfato, maior ânimo, boa disposição e uma enorme saudade das unhas das mãos.

Quando acabei de roer as unhas do pé e começava a arrancar tufos de pêlos das canelas com os dentes, vi que aquilo não podia continuar e, voltando a mim, parti para algo mais racional: comer palitos de fósforo. Aconselho os da Fiat Lux. São mais maleáveis e desmancham melhor ao contato da saliva. O maço de cigarros gargalhava.

Vencidas quatro horas de abstinência, eu já estava plenamente convicto de que a grande inspiração de Stevenson para escrever o Mr. Hyde havia sido parar de fumar e, ainda que agnóstico, já rezava a Deus com toda a devoção para que a menstruação viesse logo, pois tinha certeza de que estava com TPM.

Desenvolvi, aliás, durante esse período, uma tese que deixo aqui como incomensurável contribuição ao desenvolvimento do estudo da História: fosse o exército cartaginês composto apenas de ex-fumantes, estaríamos aprendendo a língua púnica até hoje nos colégios.

Quanto a mim, estava num tal estado de nervos que seria capaz de enfrentar um batalhão de espartanos usando apenas um canivete suíço. E ainda dava duas orelhas de vantagem.

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