ESTOU PARANDO DE FUMAR (4)

Fumar4

Devidamente embalado para presente, apanhei então quatro caixinhas de chiclete de nicotina, abri-as e enfiei aquilo tudo na boca, o que me levou a meditar profundamente sobre o surpreendente nível de desenvolvimento a que chegou a tecnologia de nosso tempo, os avanços indescritíveis da civilização ocidental e a espantosa capacidade criadora do engenho humano.

Afinal de contas, ainda hoje me pergunto, abobado: mas meu Deus do céu, como é que os nossos cientistas conseguiram produzir algo mastigável a partir, tão-somente, do cocô de uma vaca? Porque, pelo sabor da goma de mascar, sem dúvida esta foi a matéria-prima utilizada em sua produção.

No entanto, como o carpete da sala fosse a última coisa que restava em casa minimamente assemelhada a comida, resignei-me, vesti minha roupa e voltei ao sofá, mascando os tabletes, fingindo não ouvir as risadinhas abafadas do maço de cigarros e sentindo uma imensa dificuldade para andar.

Isso porque um dos adesivos, que originalmente deveria ser colocado na virilha — talvez por vingança, talvez por um certo interesse em astronomia —, minha mulher acabou por colá-lo entre a coxa e partes flácidas, cabeludas e algo baloiçantes do meu corpo, de maneira que cada movimento das pernas provocava um puxão que me levava a um instrutivo passeio pela Via-Láctea.

Mas, por fim, consegui sentar-me e fiquei ali sem fazer nada nem pensar em coisa alguma. Ou seja, assistindo à televisão. E não sei bem se foi o programa da Luciana Gimenez ou se foi o efeito da nicotina no meu sangue, mas a verdade é que, em cerca de vinte minutos e através de um processo taumatúrgico ainda não catalogado, de repente me vi transformado no senador Eduardo Suplicy: estava absolutamente relaxado, não conseguia articular direito as palavras, tinha o raciocínio lento e uma irrefreável vontade de cantar “Blowin’ in the Wind”.

— Você tá bem? — perguntou minha mulher, meia hora depois, ao perceber que me contorcia, às gargalhadas, debruçado sobre o chão.
— As formigas, mulher… Ha! ha! ha! Ui! Eu morro…
— Ahn?
— As… as form… Hi! hi! hi! Ai, Jesus! As formig… formi… Quá, quá, quá!
— Qual o problema das formigas?
— Elas… elas… Hu! hu! hai! Ai! Antenas! He! he! hi!
— Quê?
— Antenas, mulher…
— Mas do que é que você tá falando?
— As formigas, elas têm antenas. Ha! ha! ha! Antenas! Hu! hu! Não é hilário?

Ela não achou. Aliás, pouco dada ao humor e a novas descobertas, nem ao menos sorriu quando eu, me estourando de rir, desvelei que a porta tinha trinco, o interruptor acendia a luz, a geladeira esfriava e tantas outras coisas igualmente risíveis e interessantes do gênero.

— Tu comeu maconha, foi? Vou te levar de volta pro hospital! — reagiu.

Mas, não lhe dei ouvidos. E só parei de gargalhar muito tempo depois. Quando, em minha científica atividade investigativa, descobri mais um fato curioso: que, sim, é possível levar choque ao enfiar a língua na tomada.

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