JULGAMENTO DE UM RÉU NUMA SOCIEDADE MATRIARCAL (1)

Julgamento1

ADVOGADA: Excelência, o réu em questão tem uma ficha tão ampla que se torna até desnecessário acusá-lo. Primeiro e antes de mais nada, é de insensibilidade tal e tão pouco afeito às normas estabelecidas pela sociedade de Direito que jamais, em toda a sua vida, reparou quando sua cônjuge pintou as unhas das mãos.
RÉU: Protesto, Excelência! Nunca quebrei princípio tão fundamental de nossa Constituição! Tenho uma testemunha que pode listar uma série de elogios feitos a ela pela minha pessoa nesse particular.
ADVOGADA: A testemunha referida pelo réu, Excelência, é sua mãe, cujo depoimento deve ser desconsiderado por razões óbvias. Aliás, várias outras testemunhas podem atestar o quanto este ser hediondo desrespeitou sua progenitora, sendo incapaz de usar casaquinho para não pegar friagem, tendo uma aversão profunda pela papinha de aveia e recusando os amáveis bolinhos de feijão, arroz e farinha quando da infância. E, sobretudo, arranjando por nora mulheres tatuadas e que pintavam o cabelo de vermelho.
RÉU: Protesto, Excelência, o cabelo da moça era roxo!
JUÍZA: Protesto negado! A acusação pode prosseguir.
ADVOGADA: Cabelo. Jamais esta criatura abominável foi capaz de perceber quando a mulher cortou o cabelo ou mudou o penteado. Tampouco sabe apreciar coisas essenciais ao pleno funcionamento das instituições, como as distinções evidentes entre o verde-musgo e o verde-capim, o salto 15 e o salto 20, a sandália de dedo e a de bico fechado, e não tem a mais remota noção do que é o poliéster ou o crepe.
RÉU: Mentira, Excelência! Sei perfeitamente o que é um crepe. Inclusive adoro o de chocolate.
JUÍZA: Silêncio no tribunal! Prossiga.
ADVOGADA: Este ente odioso é inapto ao ponto de raras vezes acertar o jato de urina dentro do vaso sanitário. E apesar de em sua defesa querer alegar que sofre do mal de Parkinson, temos sérias razões para acreditar que o faz, pura e simplesmente, por má fé.
RÉU: Ha! Isso é fácil de falar. Queria ver se a senhora tivesse pinto!
JUÍZA: Advertimos o réu de que não serão admitidas palavras de baixo calão neste tribunal! A acusação pode prosseguir.
ADVOGADA: Continuando, direi ainda que o traste, digo, o incônscio réu possui o hábito espúrio e detestável de atirar as roupas em qualquer canto da casa. Há fotografias nos autos mostrando meias sobre a mesa, calças jeans sobre a bicicleta ergométrica e até cuecas sobre o chão da sala, Excelência.
RÉU: A cueca era da minha mulher, Excelência! Eu juro!

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