HIPERBIBASMO

Lomonosov

— Ué? Por que você parou?
— Você gozou?
— Uhm-hum.
— “Uhm-hum”, sim, ou “uhm-hum”, não?
— Lá vem. Você não ouviu quando eu disse: “Isso, isso, ai, isso”, Caio Fernando?
— Ouvi. Acontece que você disse “issuuu, issuuu”, acentuando a segunda sílaba, ao passo que quando você vai gozar de verdade você diz “iiisso, iiisso”, marcando a primeira.
— Meu Deus! Eu creio que quando os sexólogos falam em algo pequeno, sensível e indispensável ao gozo, eles estão se referindo ao clitóris, Caio Fernando, e não ao acento tônico.
— Aqui não se trata de português, minha filha, mas de psicologia. Há mais coisas entre o períneo e o umbigo do que sonha vossa vã sexologia.
— Claro, claro, psicologia, né? De certo é o seu complexo de Edípo ou a inveja do penís.
— Muito engraçado da sua parte. Mas o fato é que você cometeu um ato falho.
— Quanto a isso, não resta a menor dúvida. Foi naquele 15 de julho, quando me vesti de noiva pra entrar na igreja.
— Continue brincando, pode brincar. Só sei que esse hiperbibasmo fala por si.
— Hiperbibasmo? Pra começo de conversa, Caio Fernando, é bom deixar o convencimento de lado. Fique sabendo que já vi bibasmos muito maiores que o seu. Você tem no máximo aí um “grande bibasmo” e olhe lá. Além do mais, não vejo como um deslocamento de acento possa ter alguma conotação sexual. A não ser que o “acento” em questão tenha “ss” em vez de “c” e estejamos falando de uma cadeira erótica, claro.
— Tudo bem, vamos recomeçar. Acho que faltou de minha parte um maior estímulo ao seu clítoris.
— Clitóris.
— Aaaaaah, viu? Olha aí o acento influenciando sexualmente. Duvido que você transasse com um sujeito que falasse clítoris em vez de clitóris.
— É diferente. Completamente diferente, Caio Fernando. Nesse caso, estamos falando de um erro crasso, de um “super-hiperbibasmo”. E, convenhamos, tamanho não é tudo.
— O problema é o mesmo, minha filha. No fundo, o problema é o mesmo.
— Não, no fundo, sobretudo em se tratando de hiperbibasmo, o problema é mais complicado, se é que você me entende. Agora vamos embora, vamos. Perdi a vontade de transar. Bem que mamãe me advertiu pra não casar com um gramático!
— Espera. Você ainda não respondeu.
— O quê, Caio Fernando?
— Gozou ou não gozou?
— Uf! Não, não gozei. Tá satisfeito com isso? Ou melhor, com issuuu?
— Sabia. Você não me ama mais.
— Quanta neura, Caio Fernando! Tudo isso só por que eu não gozei?
— Nunca nos aconteceu antes, Fátima Paula.
— Como não? Você acha que durante esses anos todos eu gozei todas as vezes que a gente transou, Caio Fernando?
— Claro que não. Sei que não. Pede a conta. Vamos embora. Mas nunca tinha cometido um hiperbibasmo…

27 Comentários

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    <![CDATA[Eu achando que hiperbibasmo era coisa de bicha grandona. Vivendo e aprendendo… Continuamos por aqui, viu? Via RSS. Cúmulo da preguiça internética… Beijo!]]>

  2. Anônimo · ·

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