DEPRIMIDOS

– A cerveja tá quente.

– Tudo isso é culpa de Abraão.

– Abraão! Uma cerveja mais gelada, por favor!

– Não, o nome do garçom é Pedro. Tô falando é que a pós-modernidade, esse lixo artístico todo, o pop, o Programa do Didi, a carne de soja, o sertanejo, o funk carioca e quem sabe até mesmo a cerveja quente… Tudo isso é culpa de Abraão.

– De que Abraão você tá falando?

– O patriarca judeu. Pense bem. Sem Abraão, não haveria Cristo. Sem Cristo, não haveria o cristianismo. O cristianismo influenciou nos ideais da Revolução Francesa. Sem Revolução Francesa, a nobreza ainda taria no poder. Se a nobreza tivesse no poder, não haveria pós-modernidade. Logo, nós não estaríamos ouvindo essa música horrorosa que tá tocando aí no alto-falante agora, por exemplo. Tô certo ou não tô?

– Cartesianismo puro. Exceto pelo sertanejo. Mesmo sem Abraão ele teria aparecido, porque aí já estamos falando da alçada do diabo, que, como se sabe, nasceu muito antes, ali pelo oitavo ou nono dia da criação, mais ou menos na mesma época do Oscar Niemeyer.

– Essa indigência cultural me deprime, cara. Me deprime muito.

– A mim me deprime muito mais. Me sinto um forçado siberiano em noite de Natal.

– E eu me sinto um forçado siberiano em noite de Natal, assistindo um filme de Bergman.

– Nesse caso, sou um forçado siberiano em noite de Natal, assistindo um filme de Bergman e escutando o último ato da Traviata.

– Ah, é? E eu sou um forçado siberiano em noite de Natal, vendo Bergman, escutando o último ato da Traviata e lendo as desventuras do jovem Werther.

– Pois eu não só sou um forçado siberiano em noite de Natal, vendo Bergman, escutando a Traviata e lendo Werther, como ainda por cima tenho fotos do Sebastião Salgado espalhadas por toda a parede da cela.

– Tudo bem. E eu faço tudo isso, enquanto na cela ao lado minha mulher tá transando com um poeta neoconcretista.

– A minha tá transando com um poeta neoconcretista e um artista plástico que monta instalações, pro seu governo.

– E a minha? Com o neoconcretista, o instalador, um VJ da MTV e mais dois anões manetas.

– A minha tá então com o neoconcretista, o instalador, o VJ, dois anões manetas e uma girafa.

– Manca?

– A minha mulher?

– Não, a sua girafa. A minha é manca.

– Não adianta. Eu sou o mais deprimido, cara.

– Sou eu.

– Eu.

– Eu!

– Tudo bem, tudo bem. Empate?

– Empate.

– Então, passa a cerveja.

– Tá quente de novo, olha aí.

– Putz. Maldito Abraão!

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