O MITO DA CRIAÇÃO SEGUNDO UM BAIANO (Republicado em memória de Caymmi)

No princípio era a Bahia. E Caetano disse:

— Faça-se o Pelô!

E Gil argüiu:

— Enfim, sob o prisma transitório da protomatéria nasciva, enfim, tendo em mente as palavras de Arjuna a Krishna e toda a prosódia popular do cancioneiro, enfim, ademais considerando-se as premissas da Escola de Frankfurt e a biosfera como um todo, enfim…

E aquela discussão se arrastou por um bilhão, novecentos e trinta e quatro milhões, noventa mil, duzentos e trinta e sete anos. Um tempo tão dilatado que, nesse período, Caymmi chegou a descer da rede e compor dois versos.

E enfim o Pelô ficou pronto e Caetano disse:

— O Pelô é lindo, Dona Canô é linda, eu sou muito mais lindo e a mulata não é a tal.

E Caetano criou a fauna e a flora: um leãozinho, uma camaleoa, uma vaca de divinas tetas, o capim rosa-chá e, sob a influência de Gil, um abacateiro. E Caetano achou odara. Mas o diabo não:

— Coisa insossa! O homem vai viver nesse paraíso sem se perturbar? Não! Vamo fazer trios elétricos e inventar a axé music, pô! Todo o mundo tem que sofrer um pouco!

Mas logo o diabo se calou, porque viu ACM e sai correndo com medo. E ACM disse:

— Faça-se o Estado! E as empreiteiras. E os cargos comissionados. E o homem. E que o homem tenha o sobrenome Magalhães e cresça e se reproduza e acumule com meus apadrinhados todas as funções públicas.

E assim foi. Mas, como o primeiro baiano estivesse se sentindo muito só, Caetano achou por bem lhe dar uma companhia. E de sua costela fez um outro homem. E Caetano achou lindo. E Luiz Mott também.

Mas Jorge Amado interveio:

— Ô, meu pai, não dava pra fazer um negocinho mais agradável, não? Algo assim que envolvesse seios e xibiu, por exemplo?

E Caetano aquiesceu, porque Jorge é lindo. E da trança rastafári do baiano fez a baiana. E eles viveram felizes durante muito tempo, até que Bandaeva, a primeira baiana, comeu o caju proibido e os dois foram expulsos da Bahia e mandados num pau-de-arara pro Rio.

E ali eles frutificaram, e Bandaeva teve uma filha, Bebé, prima de Lili, irmã da vizinha do primo de Cacá, cunhada da nora do avô de Juju, amante do irmão da lavadeira do genro de Dodô, primo de…

Mas aí já é outra história, mais extensa, que não caberia num livro tão curto quanto a bíblia.

(Esta crônica vai dedicada a meu amigo e grande entusiasta de ACM, Franciel. E para meu também amigo Cabamacho, outro fã declarado do clã dos Magalhães.)

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  118. Olá Leal,

    Genial este texto, acabei de recebe-lo por mail, e fiquei tão curioso que cá vi verificar o autor. Meus parabéns.

    Vou “linkar” seu blog.

    Força com isso!

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