CORRESPONDÊNCIA ENTRE IRMÃOS

Ser de princípios inquebrantáveis e moral estóica, acho inaceitável que um amigo faça a outro determinadas coisas. Dentre as quais, a principal, segundo entendo, é destruir sua fé, seja ela em Deus, no diabo, no Dunga ou na inocência de Daniel Dantas.

No entanto, foi precisamente esse tipo de comportamento condenável que o Sr. Branco Leone teve ontem, após uma tarde em sua casa, onde conversávamos eu, ele, a minha e a sua mulher, criatura excepcional, cujos únicos defeitos são ter Franciel como conterrâneo e um pulha por marido.

Comentava sobre minha recente idéia de praticar o sexo passivo em troca de dinheiro, dado o profundo desespero financeiro que vivemos atualmente — o qual vem servindo, inclusive, para comprovar a teoria evolutiva de Darwin, posto estarmos começando a criar asas e fazer fotossíntese, na total impossibilidade de pagar por uma simples passagem de ônibus ou nos alimentarmos decentemente.

Referi ainda a particular condição de cego e pária em que a carência de dinheiro me lançou depois de, semana passada, para cúmulo da sorte e felicidade, termos sido vítimas de um assaltante, que levou não só nossos últimos recursos e todos os documentos como, também, meus óculos — sinal de que o Brasil está melhorando sensivelmente do ponto de vista educacional, pois até os ladrões, ao que parece, estão sendo alfabetizados.

Findo relato tão alegre, agradável e estimulante, voltamos eu e Patricia a nossa residência e, no dia seguinte, para minha surpresa, ao abrir o correio eletrônico, deparei com a seguinte mensagem, em cujo subject se lia “Não aceito um ‘não’ como resposta”:

Manda o número de uma conta no banco.
E vê se não demora.
Dom Branco CorLeone

Boquiaberto com a oferta, em estado de choque devido à menção velada a dinheiro (feita sem aviso prévio ou qualquer tipo de cuidado para com meu coração) e depois de procurar no Aurélio o significado da expressão “conta no banco”, respondi, com a sapiência e finesse de hábito:

E nós agradecemos muito, de verdade (inclusive pensamos em propor a canonização em vida de vocês ao Vaticano; afinal, ninguém pode ser gente boa assim o tempo todo sem sofrer as devidas conseqüências), mas não aceitamos boiolismo como proposta.

Pouco polido por natureza, o outro retorna, com alusões nada edificantes a meu local de nascimento:

O negócio é o seguinte, meu querido amigo endurecido pela secura da caatinga: pra mim, não faz sentido ter dinheiro aplicado “rendendo” uma quirera(1) de juros de merda(2) enquanto duas pessoas queridas (e que não ficarão para sempre nessa situação) passam por dificuldade.

Se a dificuldade é momentânea, ótimo, o empréstimo também é; se a dificuldade for um pouco mais duradoura, foda-se(3), o empréstimo também será. O que interessa é que é empréstimo.

Boiolice seria se não fosse empréstimo. Não pago o aluguel nem dos filhos da mulher que eu como, que dirá os da sua mãe(3,6).

Tá, vou dizer de outro jeito: me deixe ajudar vocês, caralho(3,63). ME faz bem.

Além disso, faço funcionar o “efeito Corleone”: mais tarde, dia desses (ou não), quando EU precisar de um favor, far-lhe-ei uma proposta irrecusável(3,9). Depois disso, você fala em Vaticano.

Sempre próvido, magnânimo e de célere tirocínio, volto à carga:

O senhor diz que eu creio no Homem(4), mas comete pecado pior: acredita no futuro. Nada, absolutamente nada, indica que sairemos dessa situação, cedo ou tarde.

Além do mais, a palavra “empréstimo” tem causado urticárias, câimbras e uma série de espasmos ultimamente por aqui, de maneira que recusar mais um é, quando menos, uma questão de saúde, profilática.

Por fim, pode me fazer uma proposta irrecusável que a aceitarei(4,2), sem que para isso precise me emprestar dinheiro, ó judeu (aliás, cristão-novo, em se tratando de ascendência portuguesa)(4,75).

Em suma, agradecemos de novo, enormemente. Pero(5), não vamos estragar uma amizade tão boa colocando dinheiro no meio… Ainda mais quando o meio é o meu, que já anda tão lascado, coitado! (CONTINUA AMANHÃ)

NOTAS
(1) Consciente de minha vasta erudição e na tentativa de me impressionar, Branco Leone usa uma palavra que acabou de pesquisar no Houaiss.
(2) Aqui, jogando por terra o esforço anterior, volta a utilizar o vocabulário chulo e piegas de costume.
(3) Que foi que eu disse?
(3,6) Tentando se passar por poeta fino e homem de alma sensível, Branco Leone emprega metáforas para falar de amor e família de modo doce e belo. A contragosto, devo admitir que, nesta sublime passagem, pelo menos, conseguiu superar Shakespeare.
(3,63) Como sempre gostou de contar vantagens ou talvez em função de desvio psicológico ainda não estudado pela ciência, Branco Leone se refere ao próprio órgão sexual no plural.
(3,9) Revelando todo o seu lado perverso e tarado, Branco Leone deixa escapar sua verdadeira intenção: abusar de mim, no futuro, me obrigando a raspar o cabelo e lhe dar todos os fios para que possa fazer um implante em sua ridícula calva.
(4) Referência a conversa anterior, em que Branco Leone afirmava sua descrença no Homem, mas, por outro lado, sua total fé no jumento.
(4,2) Minto descaradamente para ser gentil.
(4,75) Como tão bem demonstra sua capacidade de raciocínio e compreensão, Branco Leone descende de portugueses.
(5) Poliglota — além de alto, de olhos verdes e musculoso —, torno patente meu domínio excelso do espanhol.

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