ENTREVISTA COM DEUS

Eu sou Pai Dodô e você está assistindo a mais um Mesa Branca Redonda, seu programa de debates, que discute tudo o que aconteceu na rodada metafísica da semana. E abrimos a noite já com uma ótima notícia: atingimos o posto de segunda atração de maior audiência na Suécia, perdendo apenas para Suicídio, uma alternativa viável. Deixo o nosso muito obrigado, via satélite, aos suecos e demais telespectadores em todos os mundos. Bom, hoje temos um convidado especialíssimo: Deus, o Criador, o Onipotente. Sim, Ele mesmo, em tripla pessoa. Já estamos com o Altíssimo na linha, ao vivo, e imortal. Senhor, pode nos ouvir?
Ahn? Fala mais alto! Jesus, diminua o som dessas preces evangélicas ou vá escutá-las no quarto. E pare de gargalhar, por favor. Esses adolescentes… Pronto, pode falar.
Boa noite, Senhor.
Só se for pra você. Aqui onde estou é noite, manhã, tarde, madrugada e crepúsculo. Eis aí no que dá esse negócio de onipresença: um estado meteorológico quase tão confuso quanto o da cidade de São Paulo. Espírito! Espírito, por favor, Espírito, nós estamos na televisão! Eu sei, eu sei, já disse mais de quinze vezes que vou consertar o anel de Saturno. Tá, tá, juro por minha mãe morta que vou pensar sobre isso de criar um ofurô natural em Netuno. Siiiim, com água odorizada! Agora, dá licença? Vossa Senhora! Será possível que não se tem um minuto de paz neste Céu? Vou dizer uma coisa: se há uma verdade absoluta é que o casamento entre três entidades imateriais eternas é uma instituição falida.
Bem, é uma honra recebê-lo em nosso show, Senhor. Pra começar, gostaria que falasse um pouco sobre as críticas dos que O acham meio ausente da vida na Terra.
Olha, isso se deve, de um lado, à má-fé; de outro, à ignorância; de outro, à natureza obtusa do homem; de outro… Peraí, o universo de vocês é bi, tri, tetra ou pentadimensional? São tantos que às vezes me atrapalho. Outro dia inspirei a idéia da bola e do futebol em um universo bidimensional e os pobres coitados, quando querem se divertir agora, passam noventa minutos chutando uma parede de concreto. Seja como for, quanto à questão proposta por você, digo que mesmo criaturas dotadas de apenas três cérebros e seis olhos como os humanos podem pressentir que acompanho atentamente o que ocorre por aí. Apesar de minhas inúmeras atribuições e compromissos a biriba domingueira com Satanás, por exemplo , participo ao menos dos eventos capitais da História terrena. Uma prova disso é que, não faz uma semana, gastei horas vendo e revendo o novo filme do Paul Thomas Anderson. E adorei. É belo e aterrorizador, denso e fluido, longo e ágil ao mesmo tempo. Em suma, ele usou o meu conceito de baleia.
O Senhor passou horas assistindo a um filme no momento em que a crise americana ameaça levar à miséria milhões de pessoas no planeta inteiro?
Eu sei, a crise financeira global é um evento terrível. Porém, não há por que se preocupar. Felizmente, o Paraíso fez a lição de casa, os pilares de nossa economia estão sólidos e não seremos afetados por ela. Veja que há milênios atravessamos um período de prosperidade. O que, aliás, comprova a tese malthusiana, pois nossa população não aumenta desde a queda de Roma, aproximadamente.
Uma pergunta curta e direta, Senhor: qual o sentido da vida?
Olha, inventei isso há tanto tempo… Não sei exatamente, mas creio que tem a ver com um comportamento moral aceitável, amar o próximo como a si mesmo e praticar esgrima às quartas. Ou evitar iogurte de ameixa… Não, peraí… Nunca usar ceroulas de bolinha… Lembrei! O sexo só pode ser feito para procriação, depois do casamento, na santidade do lar e com a participação do marido, da esposa e de no máximo outras nove pessoas, com a opção de se substituir uma delas por um taco de beisebol ou uma jaca, a escolher. É isso, tenho quase certeza. Havia anotado em algum canto, mas você sabe como são essas faxineiras: pegam as tábuas de pedra da gente e colocam em lugares que nem a onisciência alcança.
Senhor, o que todo indivíduo se pergunta, angustiado, é se existe um objetivo, enfim, se o Senhor tem um plano para nós, humanos.
Claro que sim. Mas devo confessar, empulhado, que não consigo colocá-lo em prática. Já tentei de tudo: dilúvio, terremotos, furacões, meteoros, o horário nobre da TV… Meu maior orgulho é a Peste Negra. De toda forma, não posso reclamar de vocês, que têm feito o melhor possível nesse sentido. Durante a Guerra Fria, quase chegaram lá. Até hoje, nada me tira da cabeça que Satã foi o mentor do acordo de paz naquele episódio dos mísseis em Cuba. No fundo, não passa de um cristão sentimental.
O senhor acredita no homem?
Pra falar a verdade, me considero agnóstico. Não nego a possibilidade de existir vida inteligente depois do nascimento. Nutro mesmo uma forte esperança, por exemplo, nas bactérias de Marte. Mas há momentos em que acho que tudo isso é uma alegoria, que o homem é apenas uma criação teomórfica que serve pra aplacar meu medo da eternidade. Muitas vezes me deprimo e me pego especulando sobre essas questões físicas e imanentes, como qualquer Deus normal.
Obrigado, Senhor.
Eu que agradeço. Não é sempre que tenho a oportunidade de me comunicar com vocês assim, diretamente. E essa coisa de sinais e milagres dá margem a muito mal-entendido. Veja o caso dos segredos de Fátima. Maria queria marcar uma tal convenção de católicos em Moscou e até hoje tem gente que pensa que ela falou na conversão da Rússia. Coitada. Bom, deixo o meu abraço ao povo da Terra e dos demais planetas que compõem a mesma galáxia. Sempre fui muito bem tratado aí em Andrômeda. Até a próxima. Obrigado. Tchau… Pronto. Ufa. Ah, não! Que foi agora, Espírito?

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