CAVALOS-MARINHOS

É esperma!

Ui, que nojo! Eu disse pra gente não vir aqui, a comida é ruim, cara, o uísque é falsificado e agora essa: a pessoa corre o risco de voltar pra casa grávida. Onde? No purê ou no arroz?

Não, naquela composição…

Veja só o tipo de gente que freqüenta o local. O sujeito aproveita o jantar pra se masturbar sobre o arranjo de flores. Pensando numa alface, provavelmente. Vam’bora, vem.

Senta aí, tô falando da composição, da música, aquela musiquinha… daquele menino, o… Russo…

Que russo, Pedro Paulo?

Aquele que era gay, como é o nome dele?

Nureyev?

Renato… Renato Russo. Pois então, aquela musiquinha que tava tocando agora há pouco…

Te lembrou de esperma? Olha, desconheço teu passado sexual e não falo nada sobre desempenho, mas devo dizer que comigo a trilha sonora dos teus relacionamentos melhorou bastante, ao que parece. Até hoje, pelo menos, venho conseguido gozar sem ter que tapar os ouvidos.

Você sabe por acaso de que música eu tô falando?

Não, mas se é de Renato Russo deve envolver versículos bíblicos, índios, alguns erros de concordância e durar pelo menos dez minutos.

Que preconceito. O rapaz até que não era dos piores.

Sua escala de piores abrange Humberto Gessinger ou você pára em Kid Abelha? A minha inclui até Marquinhos Moura e Kátia, e digo a você que o rapaz tá pela base, mais pra perto da Sarajane. Aquela dos cavalos-marinhos então é de matar! O sindicato dos cavalos-marinhos devia exigir reparação. (Cantando.) “Cava-looos… mari-nhooos…” Por que o infeliz enfiou cavalos-marinhos ali no final da música, meu Deus? Tanto fazia dizer cavalos-marinhos como bananas-da-terra ou caroços de jaca, quer dizer, o negócio não tem sentido. (Cantando.) “Sarga-çooos… verdi-nhooos…”

Tá, tudo bem, não falo da dos cavalos-marinhos. A dos cavalos-marinhos devia ser citada na Corte Internacional de Haia. E também não tô me referindo à música em si, se é que se pode chamar rock de música sem que o termo englobe também o ronco de motor de caminhão e aquele tssss de quando se abre latinha de cerveja. Mas você há de convir que essa do esperma, por exemplo…

(Cantando.) “Para-lééé… lepípe-dooos…” Incrível. Isso merecia um estudo psicanalítico. Deve ter algum sentido esotérico, porque o sujeito não chega assim de repente e diz “cavalos-marinhos” do nada. Tipo: “Obrigado, doutor. Boa noite e cavalos-marinhos pro senhor também”. Ou: “O tempo tá péssimo hoje. Ou chove, ou cavalos-marinhos; das duas, uma”. Ou ainda: “O ceticismo contemporâneo, resultado da desconstrução oitocentista da moral cristã, empreendida, entre outros, por Nietzsche, tem como conseqüência, de um lado, o hedonismo pós-moderno e, de outro, cavalos-marinhos”. Não dá!

Você tá escutando o que eu tô dizendo?

(Cantando.) “Arroz beeem… fresqui-nhooo…” Ou então foi promessa. Você sabe, o sujeito morrendo e tal, se apega a tudo. Alguém deve ter dito: “Coloca ‘cavalos-marinhos’ numa letra. ‘Cavalos-marinhos’, não esquece. É batata”. Ou, por fim, vai ver que, pensando no Paraíso, decidiu se filiar a uma ONG que cuida de bichos que têm nome composto e referente a um dos quatro elementos da natureza. Pena que morreu cedo, senão teria escrito algo bonito sobre as lagartas-de-fogo também. (Cantando.) “Lagar-taaas… de fogui-nhooo…”

Esquece. Só tava querendo explicar que aquela que diz: “Aquele gosto amargo do teu corpo ficou na minha boca por mais tempo” etc., quer dizer, essa que acabou de tocar aí, deve ser uma referência a esperma, você não acha? Digo, o sujeito era gay e, enfim, pode ter sido uma maneira sutil de…

Ah, eu sei de qual você tá falando! Por que não disse logo? É a do barco a motor! Putz, a do barco a motor não dá, Pedro Paulo. “Tão certo quanto o erro de ser barco a motor e insistir em usar os remos é o mal que a água faz quando se afoga”. Pede a conta. Essa metáfora do barco a motor, vou te contar, nem Gilberto Gil em suas melhores entrevistas. A poesia fonética de Daniil Kharms faz mais sentido. Fico imaginando uma composição de Renato Russo com Djavan. Seriam necessários uma junta de lacanianos e um cachimbo de ópio pra entender. A conta, anda. Ah, e não precisa pedir sobremesa. Quando chegar em casa, vou comer algo mais saudável. Nossa coleção de Cole Porter, talvez.

Peraí, por que cê tá levantando? Deixa de…

(Cantando.) “Vou no bããã… nheiri-nhooo…”

10 Comentários

  1. Inevitável:
    “Tá muuuitooo… bacaaa-naaaaa…”

  2. Tinha um outro menino, acho que amigo do Russo, que cantava “…segredos de Liquidificadooooooorrr…” (que porra é essa? – ops!!!), deve ser mal da espécie!

    Djavan é gay?

  3. Rapaz, tá bom este post! mas me preocupo com a reação dos fãs talebãs do Legião Urbana! eles podem invadir e empastelar tua redação, cantando:”é preciso amaaar/
    as pessoas como se não houvesse amanhã”!

  4. Marconi, não durma, acorde, acorde, acorde…
    Porque hoje é sábado…( e o Milton está dormindo…)

    MARÍTIMOS
    by Ramiro Conceição

    I. BOM TEMPO

    Entre seres marítimos,
    dancei nas celhas do vento,
    do meio-dia ― ao Sol rebento.
    Pois é, dancei com todos os piratas
    e também com a canalha dos tempos…

    O estranho era que, enquanto bailava,
    toda a matula, a chorar, pedia perdão
    a mim ― justo a mim! ―
    que sou incapaz de me perdoar…

    Quiçá por capricho do destino,
    ao dormir na areia do desatino,
    sempre fui desperto por Netuno
    ― trajado à maneira de um menino,
    perfumado à maresia ― que me dizia:

    “Por que, Poeta, corres tal risco de morte
    de estar aqui, neste Mundo que mente,
    que não muda, e que, verdadeiramente,
    nunca soube o que é ser livre ou sorrir?”

    E pra Ele quase sempre sorri, a rir…

    ― A minha sorte talvez tenha sido
    pensar-sentir, quase enlouquecido,
    que sonhar é compreender o vento
    da tempestade… e do BOM TEMPO!

    II. OCEÂNICO

    “O que fazer com o bem adquirido
    a não ser entregá-lo ao mais querido?
    Não é assim, se não se teme o fim?”

    “O que fazer com a riqueza conquistada
    a não ser consagrá-la à Humanidade?
    Não é assim, todo o existir além de si?”

    “ O que fazer com a ciência,
    a não ser ensiná-la à inocência?
    O que fazer com a consciência obtida
    a não ser favorecer os favos da Vida?”

    Pois é, sempre foi assim
    que, de dentro de mim,
    me ensinou um Delfim.

    III. ESQUADRA

    “Amor,
    veja quantos barcos ao Mar!”

    “Aquele…
    é o navio-fantasma dos segredos.
    Aquele outro…
    é o cargueiro repleto de demônios.”

    “Amor… repare bem naquele, ali,
    disfarçado com todas as bandeiras…
    é o navio dos quintos dos infernos, sem diabo,
    porém com todos os larápios do mundo.”

    “Amor, repare naquele outro, lá,
    bem longe, perto do além-mar,
    que parece uma jangada
    pequenininha, ao vento…”

    ― Aquele sem canhões, mas em rajada!?
    “Sim, Amor,
    aquele é o barco da Poesia partilhada!”

  5. Marconi Leal · ·

    Obrigado, Inaiara. E cavalos-marinhos pra você também.

  6. Marconi Leal · ·

    Não, Emerson. Djavan pertence a outra minoria, à dos extraterrestres.

  7. Marconi Leal · ·

    Impossível, Serba. Fã de Legião Urbana não sabe ler.

  8. Marconi Leal · ·

    Ramiro, Pablo Cuniculu pra você também.

  9. Anonimo · ·

    A referencia a cavalos marinhos é devido á sua reprodução já que o macho dessa espécie é que gera os filhotes. Ou seja uma referência ao homossexualismo.

  10. Henrique Dorneles · ·

    Por favor alguém me diga quem é? Ou o que é Marconi Leal?

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