GEOGRAFIA

Minha orientação espacial é tal que o único empecilho teológico a minha conversão ao Islã, segundo vejo, é a obrigação de rezar cinco vezes por dia voltado para Meca. Dificuldade que não seria menor se em vez da cidade de Maomé o alvo das preces fosse a esquina aqui de casa.

No colégio, era sempre expulso das aulas de Geografia graças a certo anacronismo que me faz considerar a Terra atual como se estivéssemos à época da Pangéia. E isso me causava enormes transtornos, sendo o primeiro deles não encontrar a porta de saída da sala.

Um mapa-múndi produzido por mim seria o único a mostrar com clareza o movimento constante dos continentes, ainda que de forma mais acelerada. Sua comercialização, antevejo, traria inúmeras vantagens para as comunidades humanas, a saber: a Bolívia teria saída para o mar, a Irlanda se separaria da Inglaterra, o Piauí deixaria de existir e os políticos não saberiam a localização exata das Ilhas Cayman.

Mas talvez provocasse algumas confusões: depois de inúmeros perigos e dias de travessia no deserto, os mexicanos cruzariam sedentos e faminos a fronteira com os EUA e perceberiam, decepcionados, ter entrado no Zimbábue.

É bem verdade que minha desorientação é amadorística e nada comparável ao nível de excelência alcançado pelos paulistanos, que acham que a Geografia é uma ciência de esquerda, único motivo plausível que encontro para sua acirrada campanha contra ela. Para se ter uma idéia, jogando War outro dia com um amigo paulistano, ele venceu a partida ao conquistar Saturno.

Aliás, nada me dá mais alegria aqui em São Paulo do que, ao dizer ser do Recife em resposta ao estranhamento provocado pelo meu belo sotaque pernambucano, receber em troca a invariável pergunta:

 Ah, e você é de onde lá? (, para o paulistano, é um termo prático de amplo uso, que cobre três continentes e mais vinte e dois territórios a sua escolha.)
 Das Graças, ali entre o bar do Zé e a banca de jornal da Rui Barbos — respondo sempre, prestativo.

Sotaque, aliás, que ainda hoje impede os paulistanos de entenderem algumas expressões tipicamente regionais, como “crédito”. Depois de seis meses de repetições da palavra em 39 variações que escapariam ao chinês mais sutil, decidi adotar a pronúncia oficial na hora de pagar a conta do supermercado, momento mais importante para as considerações filosóficas do homem moderno, segundo Camus.

Há alguns dias, terminadas as compras, segui para a fila do caixa com o cartão na mão e a disposição dos fortes, mentalizando: “créggito, créggito, créggito…”, e me punia por estar traindo meu concidadãos e seu orgulho regional, enquanto trauteava a música-tema de Calabar.

Suava e tremia, olhos injetados, mas definitivamente alerta e propenso a não quebrar a promessa feita a minha mulher de nunca mais, como da última vez, escandir o termo aos berros, tentando enfiar um pepino no ouvido do funcionário quando não me fizesse entender.

A fila foi diminuindo e me aproximei da atendente, centrado como um iogue depois de seis xícaras de café: “créggito, créggito”, memorizava, já me sentindo um natural da Mooca.

Computado o total e entregue o cartão, meu sistema nervoso simpático ouviu a célebre pergunta, de que depende a fotossíntese, os ciclos migratórios e uma série de mecanismos vitais para o planeta:

 Crédito ou débito, senhor?

Então, respirei profundamente, empinei o peito, ergui o queixo e abri um sorriso superior, piscando um olho para aparentar tranquilidade:

 Créditcho… por favor.

Desde então adotei o hábito de me comunicar com os paulistanos em inglês e, se me perguntam, digo que nasci em Guarulhos, ponto mais ao Norte onde, como se sabe, termina a Terra e começa o abismo.

Sou moralmente perfeito, claro, mas desta vez fui injusto com os paulistanos: entrem aqui, desçam até o final da página, leiam o post “Atentimento telefônico do Banco do Brasil bate recorde de jumentalidade” e vejam como o carioca também é perito em Geografia.

11 Comentários

  1. Marconi, tenho uma curiosidade: tu é de onde?

  2. Marconi, se dê por feliz por ainda nao ter desbravado a ZL – a zona léstchi, meu. eu que sou da zona sul, quando faço minhas incursões(raras) por lá, me sinto um israelense adentrando a faixa de Gaza.

  3. O Piauí eu não sei, mas a Piauí corre o sério risco da desexistência por absoluta falta de patrocinadores. No mais, altos risos aqui no cerrado.

  4. Quem usa cartão de crédito realmente só pode ter vindo da capital do Recife. Como chama mesmo aquela cidade?
    Paulistano que é paulistano usa cartão de débito.

  5. Só voltando para avisar que postei um alfarrábio filosófico-gastronômico dedicado a vossa pessoa. Que seu estômago resista.

    Abraço.

  6. marconileal · ·

    Guarulhos, Anita.

  7. marconileal · ·

    Dear Serba, the only reason I’ve never been to the East Zone is that I have no clue whatsoever as to where the east direction is.

  8. marconileal · ·

    Nelson, a solução no caso da Piauí é mudar o nome para Rio de Janeiro ou São Paulo. Os patrocínios governamentais, pelo menos, com certeza afluiriam.

  9. marconileal · ·

    Dear Guga,

    Sorry, but as far as I can see ‘paulistanos’ use something quite different. It’s called ‘cartââo de dêêbito’.

  10. marconileal · ·

    Nelson, aqui quem fala é o estômago do Marconi. Passo bem, ao contrário dele, que foi internado esta manhã depois da leitura do seu texto (genial, como sempre, permita-me dizer apesar de não ser o órgão mais indicado para a análise literária — a não ser que se trate da obra de Petrônio, claro) com egolatria múltipla. A gente percebeu que nao estava bem quando passou a fumar cachimbo de pernas cruzadas recitando Baudelaire em tradução russa. Isso e a insistência para que o chamássemos de “Deus”. “Deus, por favor”, dizia, “ou não viram o texto do meu grande amigo Nelsinho (você), ignaros?”. Enfim, o tratamento será longo, mas ele vem melhorando. Já aceita ser chamado de Nero.

  11. Marconi, após rumorosa quizumba, consegui abrir o Umbigo em outro endereço (aí no link). Teimosia é coisa forte aqui em casa. Terminadas as férias, volto aqui com mais calma pra saborear devidamente teus textos.
    Beijo

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