MARCONÍADAS 2009

O evento foi muito badalado, teve ampla cobertura da imprensa, não se falou de outra coisa durante a semana, recebi homenagens do Estado, mas devo ser sincero: as Marconíadas deste ano não me agradaram.

Um pouco de história para os menos atentos: a maratona nasceu com a corrida de Filípides da cidade de mesmo nome até Atenas para avisar que os atenienses tinham vencido a batalha contra os persas. Esse Filípides, aliás, a se crer em Heródoto, era uma espécie de Coelho Ricochete, ainda que não haja consenso entre os pesquisadores sobre se usava ou não sombreiro: foi de Atenas a Esparta em dois dias, seguiu para Maratona, deu três voltinhas no monte Parnaso, fez a curva em Delfos e retornou, ainda correndo e gritando, para anunciar a vitória: “Nike! Nike!” Quer dizer, palavras obviamente motivadas pela consciência de que o evento ficaria célebre. Vejam vocês como já naquela época o merchandising estava em tudo.

As Marconíadas, por outro lado, lembram o célebre recuo de Marconípedes Lealon ao ver a invasão dos medos no mesmo local e sua corajosa disparada para Atenas, aos berros de: “Socorro! Por Zeus! Socorro!” Acontece que a desorientação espacial é um problema genético entre os Leal desde os tempos das cavernas (segundo historiadores, o sedentarismo é uma etapa da evolução humana que deriva justamente da dificuldade dos Leal de achar a saída destas) e Marconípedes Lealon disparou para o norte, atravessando em seguida o Helesponto e cruzando o mar Negro a nado, sempre trêmulo e olhando para trás. Marconípedes Lealon é, inclusive, o fundador da atual Marconópolis, na Sibéria.

Dito isso, informo que domingo passado fui ao Estádio Municipal Desocupado Marconi Leal, o popular Marconão, para assistir às competições que celebraram o feito daquele meu ilustre antepassado, apenas um entre tantos heróis que há na família. (Os Leal, não sei se vocês sabem, estão até na Ilíada, nos versos 130-140 da aristia de Diomedes, quando o de mãos bobas Marconeon Lealineo estica a  cabeça entre um hexâmetro e outro, apalpa a bunda da de olhos glaucos Atena e some atrás de um freixo; leiam em câmera lenta ou  toquem o poema de trás para frente que vocês vão ver.)

Sentado na tribuna de honra ao lado do governador José Serra – vencedor da medalha de ouro na categoria riso sincronizado -, vi as competições uma a uma e cheguei à conclusão que ficou mais acima: já não se fazem mais Marconíadas como antigamente. Vejam o lançamento de William Bonner a distância, por exemplo. Posso estar enganado, mas acho que nos quatriênios anteriores os atletas tinham mais graça e leveza ao pegar o apresentador pelas orelhas, girá-lo sobre a cabeça e atirá-lo contra a parede. Já nem falo que a posterior corrida para subir no caterpillar, acelerar e passar por cima do objeto lançado era mais sutil, porque podem achar que exagero.

Mas está aí o espancamento de vendedores de poesia alternativa que não me deixa mentir. Tudo bem, o recorde foi batido este ano com as 4.043 marteladas do competidor russo Dimítri Dimitrovich num declamador de poesia fonética, mas a coisa não se compara jamais com o romantismo do passado, quando o igualmente eslavo Krashmakóv praticamente rompeu a cabeça de Puchkin com belas bastonadas, evento que muitos consideram fundamental para o nascimento do Realismo.

Que dizer do decatlo, então? A prova passou por modificações positivas com a inclusão da audição de um disco completo do Calypso, a obrigatoriedade de assistir a entrevistas de Caetano Veloso e a leitura de dois livros dos irmãos Campos em espanhol, mas cadê aquela pureza da Idade Média, quando Giordano Bruno ganhou o ouro ao puxar o nariz de um padre inquisidor? Ou mesmo do Renascimento, quando Dante completou o circuito Inferno-Purgatório-Paraíso em dois dias (o florentino perderia a medalha depois, por doping de maconha)? Ou ainda em Roma, quando os leões sofriam para morder os cristãos que se moviam nas areias do Coliseu com graça e beleza?

É verdade que as provas estão cada vez mais difíceis. Competições como trocar pneu de carro, segurar um objeto por cinco minutos sem derrubá-lo, assistir à TV sem xingar apresentadores, mover os pedais da bicicleta ergométrica com a força do pensamento, tomar antidepressivos com colherinha de chá ou abrir e fechar rapidamente a geladeira sem ficar parado meia hora com a porta do aparelho aberta pensando no conceito de vontade em Schopenhauer chegam a ser cruéis.

Mas grau de dificuldade não deve ser critério para guiar os jogos, do contrário bastaria colocar numa sala professores da USP proibidos de usar a interrogação ou atrizes de empregar a frase “o personagem foi um presente do autor para mim” e tudo estaria resolvido. E agora que já se começa a pensar nas Marconíadas 2013, acho que é hora de promovermos mudanças mais profundas, que resgatem o sentido da festa. Por que não incluirmos, por exemplo, competições mais divertidas, como uma disputa entre comentaristas econômicos para ver quem consegue cometer mais erros de prognóstico? Ou entre jornalistas se esforçando para colocar o acento tônico em “fluido” ou “gratuito”?

Há saudosistas que desejam a volta de confrontos arcaicos como os mil metros de costas chupando cana e analisando trechos latinos, ou a dialética quatro por quatro estilo livre, celebrizada por Sócrates ao derrubar Protágoras com uma sequência de 12 porquês e um “e daí?”. Mas não é disso que falo. Acho apenas ser necessário retomarmos o espírito marcônico antes que aconteça com ele o que ocorreu com o espírito crítico, falecido recentemente por falta de uso.

6 Comentários

  1. Aê, Marconi, gostei de como ficou a página agora. Fazia um tempão que eu não vinha aqui. Mas e aí? Já escreveu o seu romanção? The big novel?

    Abraço.

  2. Marconi,
    este texto de hoje tem uma grande vantagem. É longo demais e ninguém consegue chegar até o fim.

    Mas, ocupo esta tribuna para lhe desejar felicidades neste seu aniversário. Sei que você não merece, mas é que, modéstia às favas, eu sou muito generoso.

  3. gugaalayon · ·

    quer dizer que nas próximas Marconíades, você e o Richarlison terão 24 anos?
    Sei.
    Parabéns

  4. marconileal · ·

    Já escrevi, Rui. Agora só falta rasgar.

  5. marconileal · ·

    Pois você não sabe do risco que tá correndo. Uma vizinha minha não leu este texto e o gato dela morreu no dia seguinte. A empregada da tia de minha prima também não leu e perdeu o útero. O papagaio do sargento do batalhão do amigo de meu irmão não leu, e ficou cego de um olho. Eu já li dez vezes e mandei para as dez pessoas de que mais gosto. Fiquei rico.

  6. marconileal · ·

    A diferença é que eu vou poder sentar para assistir às competições e ele não.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: