VISITANDO MACHADO DE ASSIS NO INFERNO (CONTINUAÇÃO)

Apesar de tudo, a viagem foi tranquila. No primeiro círculo, puxei a cordinha e o barco parou.

— Pra que lado? — perguntei a Borges.

— Más allá del jardín de los senderos que se bifurcan — respondeu.

Não o mandei catar coquinho porque não sei como é coquinho em espanhol. Por sorte estava com as ilustrações de Doré à mão e as segui até achar o Limbo. Cheguei ali, a porta estava trancada.

— Ordens de Bento XVI — falou alguém a meu lado.

Era Aristófanes.

— Maior dos poetas! — ajoelhei-me. — Procuro Machado.

— Com trocadilho ou sem? — respondeu, coçando os bagos.

— Sem, ó nobre, grande, imenso poeta!

— Deixa de ser Eurípides, rapaz! Por aqui.

Segui o venerando comediante até um gramado extenso, onde filósofos, políticos e poetas confraternizavam. Para minha surpresa, encontrei Joaquim Maria estendido sobre uma cama de folhas na relva, rodeado por Swift, Sterne, de Maistre, Plauto, Voltaire, Heine, Shaw e Molière, que o miravam consternados.

Aproximei-me e vi que Machado tremia numa interminável crise epiléptica. Horrorizado, puxei pelo braço de Voltaire:

— Qu’est-ce qui se passe?

— Ah, mon ami, il est malade!

— Une terrible maladie! — emendou Molière.

— Imaginaire? — tentei.

— Tiers-mondiste.

— Non!

— Ah, oui. Brésilienisme profond. Les brésiliens écrasent cet homme avec des hommages le plus horribles et… Êtez-vous brésilien?

— Moi? Monsieur de Voltaire… Je suis suédois. Regardez la blancheur de ma peau.

Àquela altura, todos já olhavam para mim. Plauto segurava uma marmita, prestes a atirá-la na minha cabeça. Para provar que não era brasileiro, Voltaire me pediu que explicasse o conceito de fila.

— Muito simples. Uma fila é quando um grupo de pessoas se aglomera desordenadamente, umas sentadas, outras escoradas à parede, à entrada de um estabelecimento.

— É brasileiro! — gritaram centenas de almas raivosas em coro e partiram em minha direção.

Virei-me para Aristófanes em busca de ajuda e ele, comovido, me disse:

— Vai que é tua!

Resumindo: cortei pelo inferno em todas as direções, atravessei o Estige a nado, retornei pelo Aqueronte e subi o Tietê. Quando pus os pés em terra firme, fui recepcionado pela mala aberta de um Passat, que tocava a todo volume: “Quer andar de carro velho, amor, que venha, pois eu sei que amar a pé, amor, é lenha”. Sorri aliviado, estava salvo. E voltei para casa a pé, cantarolando o Hino da República.

8 Comentários

  1. miltonribeiro · ·

    “Para minha surpresa, encontrei Joaquim Maria estendido sobre uma cama de folhas na relva, rodeado por Swift, Sterne, de Maistre, Plauto, Voltaire, Heine, Shaw e Molière, que o olhavam consternados.”

    Tal inferno, qual céu?

  2. ainda bem que o teu guia no Hades Literário é o Borges, não o Daniel Piza!!!! 🙂

  3. Marconi, meu queixo treme. Que inferno merecem os escritores. Um pós-doutorado pra ninguém botar defeito.

  4. hehehehehehe! mas que idéia a sua provar que não era brasieleiro com aquela descrição de fila, rapá!
    Ah, só pra lhe deixar com inveja: dia 28 tô chegando no REcife…
    “voltei, recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço….”
    Sorte e saúde pra todos

  5. marconileal · ·

    No céu toca banda Kalipso, Ribas. E a cerveja é Primus.

  6. marconileal · ·

    O problema de ter Borges como guia é que no caminho ele faz questão de passar por pelo menos um labirinto, o que alonga a viagem.

  7. marconileal · ·

    Ane, quando estiver por lá, não deixe de experimentar nossa cerveja quente, disponível em todos os três bares de nossa progressista metrópole.

  8. marconileal · ·

    Isso é porque você não viu o inferno dos músicos, Adelaide. Pra ter uma idéia, todos dos dias de manhã os condenados acordam com o disco natalino de Simone.

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