TROCA

— Boa tarde, tudo bem? É que meu marido comprou esse brasileiro aqui há uma semana, mas acho que ele tá com defeito.

— Ah, sim, sem dúvida. Só trabalhamos com brasileiros legítimos, minha senhora.

— Então eu… Como?

— Disse que só trabalhamos com brasileiros legítimos. A família desse daí tem uns quatrocentos anos.

— Olha, pode ser, mas ele não tá funcionando.

— Tenho certeza disso. Não funciona perfeitamente. É uma pena que não haja mais modelos do tipo. Hoje você acha brasileiros que sabem até votar. Encontrei um outro dia que dirigia bem, imagine a senhora. Ligava a seta quando ia dobrar, acredita?

— Meu amigo, acho que o senhor não tá entendendo: esse brasileiro daí não presta pra nada.

— Pois então, é o que falo, tecnologia antiga. Esses modelos mais velhos são ruins e vão piorando cada vez mais com o tempo. Não é nosso caso, mas já vi gente vendendo “brasileiro” que formava fila, jogava lixo no cesto e sabia até falar português. Cá pra nós: mercadoria suíça.

— Calma. Vou soletrar pro senhor. Esse brasileiro… Veja só. Viu? Piso no pé dele, nenhuma reação.

— Apatia no mais apurado grau. Uff, a senhora desculpe minha emoção, mas é que se trata de uma obra-prima, coisa rara. Já experimentou fazer perguntas simples para ele?

— Já, já experimentei. E ele dá as respostas mais disparatadas.

— É de uma ignorância insuperável! Minha mãe tinha um do qual tentava extrair as informações mais básicas: “Pra que lado fica a cozinha?”, por exemplo, e ele respondia, solícito e bem-humorado, dando todas as indicações para se chegar ao banheiro. E a memória? A senhora tentou ensinar alguma coisa ao seu?

— Já tentei de tudo, amigo. É como digo, o produto não funciona. Passei o dia inteiro ontem procurando ensiná-lo a discernir entre um copo d’água e uma pedra. Hoje de manhã estava bebendo um tijolo. Não dá.

— Permita que lhe diga: se a senhora o tivesse deixado numa ilha deserta com Piaget e uma junta de montessorianos, teria dado no mesmo. Não tem memória. Não tem a mínima memória. Nem talento para imitar. Não é como esses papagaios, que você diz uma coisa, no minuto seguinte eles repetem. Não, esse tipo de brasileiro pega o que você diz, troca uma ou outra coisa, depois repete à exaustão o dito, errando sempre a citação. Além de ser um ás na utilização de clichês.

— Taí, foi a única coisa que fez: passa o dia repetindo frases batidas, ditos populares e trocadilhos rasteiros. Pondo cara de inteligente, o que é pior. Isso e controlar uma bola no pé e na cabeça. Se eu estivesse precisando de uma foca, seria perfeito. Mas não é o caso, de modo que, se o senhor puder fazer a gentileza, eu estou meio apressada e…

— Literatura. Já tentou discutir literatura com o seu modelo?

— O meu modelo não lê! Nunca leu a não ser autoajuda! Será que o senhor é surdo? Ele não faz nada! Por isso mesmo vim aqui trocar por outro que faça algo, qualquer coisa útil!

— Não lê, mas discute. Não é um mimo? E filosofia também! O da minha mãe, por exemplo, era um modelo acadêmico: errava todos os conceitos de Spinoza e ainda…

— EU QUERO UM PRODUTO NOVO! Fui clara?

— A senhora está me dizendo que quer trocar o brasileiro?

— Puxa, o senhor é rápido. Nem precisei recorrer a cartazes. Sim. Pra que vou ficar com um objeto parado em casa?

— Eles são ótimos como decoração. E também podem substituir o sofá. Quer ver? Veja. É só dobrar aqui…

— Moço, pela última vez: eu quero um brasileiro que funcione.

— Mas é como lhe disse, minha senhora, só trabalhamos com produtos originais. O que posso fazer é oferecer-lhe outra mercadoria. Um francês, talvez? Eles economizam no banho.

— Não, já tenho o marido pra me matar de tédio.

— Quem sabe um argentino?

— Ahn… não. A casa é pequena, não teria lugar para o ego. Fale mais sobre o papagaio…

6 Comentários

  1. Isso que dá produzirem ainda modelos Marconi nesses tempos bicudos

  2. Tem uns coreanos que vendem uns modelos bem baratinhos, vindos do Paraguai… parece que são idênticos aos originais.

  3. Não tinha maneira melhor de terminar, um argentino por um papagaio hehe.

  4. O meu eu quero na versão feminina. Tem?

  5. J. Silva · ·

    O meu eu quero na versão feminina. Tem?
    (Jens, tentando penetrar).

  6. BRASILEIRO
    by Ramiro Conceição

    Todo francês é veado.
    Todo italiano é chifrudo.
    Burro?
    É todo português.
    Todo espanhol é sisudo.
    Todo inglês é calhorda.
    Bosta?
    É todo americano.
    Todo chinês é shaolin.
    Todo japonês, pintim.
    Todo argentino,
    da puta.
    Mas, nesta disputa,
    com tanta gente no mundo,
    com o que fica o brasileiro?
    Com tudo!

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