GRANDES FIGURAS DO FOLCLORE BRASILEIRO: O DEFENSOR DO POVO

A vida é muito simples, vocês é que complicam. Por exemplo, o ser humano: é fato consabido que não existe, não passando de uma entidade abstrata, ao contrário das ideias, dos constructos e, sobretudo, dos exploradores e dos explorados. Quanto a esses dois últimos, os primeiros são seres do mal e torcedores do Náutico; os segundos, agentes do bem e torcedores do Sport (há quem defenda a existência de terceiros, agentes do mais-ou-menos e torcedores do Santa Cruz, mas este blog não discute metafísica nem Quarta Divisão).

Quando estes vencerem aqueles e acabar materialmente a situação de exploração, a vida vai ser linda, os mosquitos mais sensíveis, o pedreiro não atrasará a obra e até o inconsciente vai deixar de existir, ocorrendo uma ruptura completa com nosso passado animal, nossos instintos primitivos e nossos livros de Darcy Ribeiro. Todos agiremos única e exclusivamente de acordo com o imperativo categórico e recitaremos Le Bateau Ivre com sotaque da Gironda, enquanto tomamos single malt.

Simples, como veem. Resta apenas definir se a emancipação do homem será algo à inglesa — numa quarta-feira às 17h35, o sujeito está em casa, recebe um telegrama: “Parabéns, você está livre”, sente uma coisa estranha no peito, toma água com sais e vai dormir — ou à latina — o indivíduo está no meio da rua e de repente cai no chão com espasmos, perguntando-se se está livre mesmo ou é ataque nos neuvo.

Mas para vencer o mal é preciso que o povo lute. E o povo está sendo ludibriado pelos exploradores — se não estivesse, não coçaria, por exemplo, o saco em público. Logo, é preciso que existam Defensores do Povo.

O Defensor do Povo é um ubermensch (nota bene: devido ao novo acordo ortográfico da língua alemã, uber perdeu o trema) sem o menor traço de equívoco em sua postura. Segundo alguns, parece mesmo que não faz cocô. O certo é que jamais se contradiz nem arrota, pedindo sempre licença antes de se masturbar. É a ele que os Subdefensores do Povo recorrem quando passam por qualquer aperto, sendo o mais frequente deles tentar pensar.

Outro dia vi um Defensor do Povo chutando um mendigo aqui na rua. Passou, olhou, deu um chutão e saiu rindo. E o que é pior: fez a paradinha antes do chute, o que é proibido pela International Board.

— Et vera incessu patuit dea — foi tudo o que o mendigo conseguiu dizer (não sei aí pelo Brasil, mas aqui em Santa Cecília os mendigos sabem o seu Virgílio).

Contei o fato para um amigo que, por acaso, acumula os cargos de amigo e Subdefensor do Povo.

— Impossível — garantiu. — Ele é um Defensor do Povo.

— Eu sei, mas tô lhe dizendo: vi com meus olhos e, por acaso, até filmei, olhe aqui. O mendigo é esse que tá fedendo — apontei.

— Este mendigo era obviamente um empresário ou algum capitalista explorador e canalha — disse ele, olhando o close do rosto do Defensor do Povo em minha câmera.

— Do ramo de sebo no atacado ou de lepra no varejo?

— Bom, um agente infiltrado… o mendigo trabalhava para os exploradores, isso é óbvio, ou o Defensor não faria o que fez.

— Entendi. Os carrapatos querem dominar o mundo e o mendigo tá prestando serviços. Calabar!

— Tá, o.k., é ele e está chutando o mendigo. Mas há uma explicação para isso, não resta dúvida. E o mendigo tá querendo se aproveitar da situação.

— Isso eu percebi. É um aproveitador. Bastou levar um chute no olho e já foi logo sangrando e criando hematomas.

— Não é isso. O mendigo quer atenção e fama às custas do Defensor. Quer aparecer.

— Claro. E depois usar a fama pra criar uma cadeia internacional de mendicância que o tornará rico.

— Olha, cara… Há um explicação para isso, eis o fato.

— Que é…?

— Houve um mal-entendido. Tudo não passou de um mal-entendido.

Simples, simples. E vocês complicando a vida.

(Esta crônica se deve a mais este mal-entendido e vai dedicada a Frankandwell Cross, dono do Northeastern Amaralina Plaza Hotel e meu amigo nas horas vagas — no caso dele, todas —, a quem pergunto: já comprou as passagens?)

3 Comentários

  1. miltonribeiro · ·

    Idéia genial, Marconi.

  2. Hehehe, acho que tirar onda da direita dá mais ibope.

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