EM BUSCA DO SATANÁS SEM RABO (Capítulo I)

1. Da eterna busca pelo Satanás Sem Rabo

Li o meu Hesíodo, conheço os Vedas, domino o maniqueísmo, consigo discutir o tomismo com relativa facilidade, rebato a metafísica de Kant em quatro línguas (e ainda dou um dialeto de vantagem), sei de cor El libro de los seres imaginarios e tenho um exemplar da Constituição da República Federativa do Brasil, mas devo dizer que em matéria de mito nada até hoje supera para mim a teogonia que aprendi de minha mãe e consiste, basicamente, no Sagrado Dogma do Satanás de Rabo.

Nunca cheguei a debater cosmogônica e profundamente com a velha em que ponto da Criação houve a cisão entre os Satanases de Rabo e os Sem Rabo, nem em que momento exatamente os Satanases sem Rabo chegaram a perder o apêndice ou, pelo contrário, os Com Rabo a desenvolvê-lo, preferindo crer que da Queda resultou alguma modificação genética e que o Inferno, sempre revolucionário, adotou antes de todo o mundo o sistema de cotas.

Tampouco sei se a mitologia tem origem nordestina (juntamente com o Cão do Segundo Livro, o Cão Chupando Manga, o Diabo a Quatro e o Marco Maciel) ou síria, sendo esta a origem da minha genitora e do meu nariz, e tendo Maomé tentado expulsar as entidades menores que campeavam pelo Oriente Médio à sua época sem sucesso (por falta de tempo, como se sabe, pois precisou se dedicar ao deslocamento de montanhas).

A verdade é que o poeta W. B. Yeats já assinalava, mais de um século atrás, que Daemon est Deus inversus sine cauda. Na Divina Comédia, por sua vez, Dante cita um diavolo senza coda, logo ali no Tártaro, passando Tântalo, terceiro pecado à direita. E Milton já falava no Paradise Lost: “O thou, Tailess Belial, pray answer: Can a crocodile walk on dry land?”

Seja como for, como disse, o princípio irredutível da teogonia materna, fundamental para o desenvolvimento de meu misticismo, é haver Satanases Com e Sem Rabo, bem como uma hierarquia de atos maléficos que só podem ser praticados pelo Satanás de Rabo e diante dos quais o máximo que seus parentes posteriormente prejudicados podem fazer é ter uma dupla decepção: primeiro, por não poderem agir e, depois, ao perceberem isso, por não poderem enfiar o rabo entre as pernas.

O clássico Paradoxo da Bolacha Caída ao Chão, mencionado pela primeira vez, ao que parece, por Jan Hus, pode explicar claramente a diferença. Uma bolacha que vai ao chão quando está sendo levada à boca é um fato corriqueiro. Quando o episódio se dá duas vezes seguidas é obra de Satanás. Três ou quatro repetições e o caso é típico da influência do Satanás de Rabo. Ou dele ou do mal de Parkinson, melhor consultar um médico.

E o Satanás Sem Rabo? Eis o ponto. Toda a minha vida até há pouco consistia na busca pela sombria criatura. Houve mesmo uma vez, uma única vez ao longo de todos esses anos, que pensei ter enfim chegado a ver o raro espécime, a confirmação de décadas de espera e paciente pesquisa, para descobrir, frustrado, que estava apenas diante de uma cena de filme pornô com Rita Cadillac.

Mas então me mudei para São Paulo e o que começava já a me parecer apenas um delírio de fanatismo ou uma história da carochinha, como a crença no anjo da guarda ou na lenda do parlamentar honesto, voltou a me soar bastante plausível. E o que é ainda mais incrível: sem que ao menos precisasse procurar o significado de “plausível” no Aurélio.(CONTINUA AMANHÃ)

um comentário

  1. João Carlos de Pinho · ·

    Marconi, seu “Can a crocodile walk on dry land?” me fez derrubar quase todo o café sobre o teclado. Posso mandar a conta?

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