FULGURAS

— Então, o que o traz aqui, seu Almeida?

— Tô com um problema de fulguras, doutor.

— Ahn?

— Fulguras. Choro toda vez que ouço aquela parte do fulguras no Hino.

— Olha, tecnicamente isso não chega a constituir um problema, eu acho.

— Não. Sobretudo se a gente não está tecnicamente assistindo um jogo de futebol num bar lotado de homens.

— Acontece sempre?

— Sempre, não. Só no fulguras. Começa no fulguras e vai até o do-que-a-terra. Do mais-garrida em diante me recupero, porque penso no Cidade Negra e passo a ter vontade de vomitar. Mas aí já tão me acusando de erguer uma clava forte e fugir da luta, doutor.

— Sei, mas, digo, desde quando acontece? Desde criança?

— Não, em criança eu só chorava com aquela musiquinha do Gorpo: “O bem vence o mal, espanta o temporal etc…” Ah, sim, também quando os personagens da Caverna do Dragão não conseguiam voltar pra casa. E, claro, no final dos filmes d’Os Trapalhões, quando Didi acabava sozinho.

— Engraçado. Nunca chorei quando o Didi acabava sozinho.

— O senhor é um insensível, doutor. Ou era da corrente que gostava de Dedé, o que dá no mesmo. A verdade é que todo mundo chorava. Dizem até que o William Waack perdeu a capacidade de rir já na infância porque era viciado em filme d’Os Trapalhões.

— E, atualmente, você só chora no Hino do Brasil?

— Só. Quer dizer… Bom, tenho certa dificuldade com o astuto-ardil.

— Quem?

— Astuto-ardil. Hino da Independência. Do astuto-ardil até o zombou-deles. Já tão me apelidando de Raio Vívido, doutor. Outro dia me chamaram de À Terra Desce. E tem aquela questão do símbolo-augusto…

— Que símbolo augusto?

— O símbolo augusto desta terra, a amada terra do Brasil. O senhor é um insensível, doutor.

— Só com hinos, então?

— E com alguns episódios particularmente emocionantes do Chaves. Vejo seu Madruga e não aguento. É um injustiçado, doutor.

— Sem dúvida, ninguém merece ter aquele rosto. Mas me diga uma coisa: se isso incomoda tanto, por que não evita a parte do Hino quando tá vendo o jogo?

— E o senhor acha que eu não tenho raciocínio lógico, doutor? O senhor acha que não seria a primeira coisa que alguém em seu juízo faria? Acontece que, se não acompanho o Hino, o Brasil perde! Não foi outro o motivo por que nos desclassificamos na Copa de 82.

— Não acredito nisso!

— O senhor é um insensível, dout…

— (Levantando-se.) Sai daqui, Raio Vívido!

— (Recuando para a porta.) Mas…

— (Pegando o busto de Freud.) Some, Brado Retumbante!

— (Abrindo a porta.) Eu…

— (Cantando.) “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo…”

— Não… mas… eu… (Sai correndo.)

— (Voltando a se sentar.) Pô! É cada uma. O cara acaba com a melhor seleção que a gente já montou!

PS — Tentei responder todos os comentários dos últimos dias, mas, como vocês sabem, ainda não estou totalmente recuperado de uma severa doença que me abateu recentemente: preguiça. Respondi os dos últimos posts e estou estafado. Confiram. Seja como for, agradeço a todo mundo, mais uma vez, pela preocupação com minha saúde (seja lá o que essa última palavra signifique). Obrigado, rapazes. A estratégia de vocês três se revezarem e trocarem de nome para parecer que o blog é lido por muita gente é ótima.

20 Comentários

  1. genial. Vc morreu?

  2. Marconi Leal · ·

    Guga, aparentemente sim. Ao menos é o que minha mulher me diz toda noite.

  3. Aparentemente, a enfermidade fez com que recuperasses a criatividade. Devias adoecer com mais frequência.

  4. Guga, ele nao morreu! ele fulgurou!!!!

  5. Fernanda · ·

    Sabia que tinha alguma razão lógica para aquela derrota de 82!

  6. Tirando a seleção de 82, não vejo qual a graça de chorar com Fulguras, eu choro logo no Ouviram do Ipiranga.

    Muito bom, cara. De volta à ativa.

  7. O famoso “Virundum”.
    Mas a seleção de 70 foi melhor. E Pelé estava lá.

  8. Rezervarem? Tem certeza que não é revezarem?

    Bem, o texto é seu. Aliás, é ótimo ver que se mantém em forma (ao menos na escrita, penso).

    Melhoras.

  9. Marconi Leal · ·

    Lontra, o certo é “dislexia”. Ajeitado, valeu.

  10. Crônica da melhor qualidade mesmo, como Idelber Avelar garantiu em seu blog. Segue firme Marconi.

  11. miltonribeiro · ·

    Fulguras já em casa, não?

  12. Renato K. · ·

    Ô seo Marconi, o Franciel já tá fulgurando por aí? Todo mundo aguardando telefonema dele e o disinfeliz não se aparece. Baiano é tudo igual. 🙂

  13. Ótima estratégia. Tava pensando em comentar sobre o texto – ótimo – mas vou mesmo falar da estratégia. Vou adotar no meu blógui, que abandonei por um tempo e agora pago caro por isso.

  14. Ah, sim. Baiano é tudo igual.

    Depois falam dos coitados dos japoneses…

  15. Jorge Lima · ·

    5 dias. A pressão subiu de novo?

  16. Inaiara · ·

    Ok para o revezamento, mas eu não sou um rapaz, rapaz!!

  17. Marconi Leal · ·

    Sei que você não é rapaz, rapaz, Ina. Mas eu sou pernambucano, pernambucano. E lá a gente usa rapaz mesmo para se referir a moças, moças. Ou seja, faz em teoria o que a Bahia faz na prática, prática.

  18. Inaiara · ·

    Bem, eu sou paulistana, paulistana, Marconi. Não vou chamá-lo de moça, moça, e – prometo – jamais de baiano, baiano.

  19. Texto genial, Marconi. Estou chorando de rir! Grande abraço.

  20. Fulguras.. He-he-he 🙂

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