Arquivo mensal: maio 2009

OBSERVAÇÕES HOSPITALARES

Vim ao hospital fazer uma biópsia nos rins e, saído o resultado ontem, contam-me que permanecerei mais cinco dias aqui, por dois motivos: fazer um tratamento chamado pulsoterapia e passar a usar fraldões. Fazer o tratamento, que dura seis meses ao todo, para tentar evitar a hemodiálise. Usar fraldões porque me borro de medo de […]

HOSPITAL DE NOVO

Internado. E, de novo, sem sal e sem enfermeiras peitudas. Os doutores têm esperança. Talvez saia daqui em agosto de 2039.

OS DOZE PASSOS DE BRASILEIROS ANÔNIMOS (B.A.)

Primeiro Passo Admitimos que éramos impotentes perante o raciocínio lógico e a análise crítica, que tínhamos perdido o controle sobre nossos dois neurônios, que líamos a Veja e acreditávamos em tudo o que estava ali escrito, que passávamos a vida a repetir clichês, a reproduzir frases feitas e a rir com A Praça É Nossa. […]

ANJO GUARDIÃO DA GRAMÁTICA

— Tô almoçando. Sim. Vamo se falando, tá bom? Vou desligar. Tudo bem. Tchau, tchau. — Vamos nos falando. — Meu Deus, que susto! De onde é que você surgiu? Que… que foi que você disse? — Disse que o certo é “vamos nos falando” e não “vamo se falando”. Isso daí é batata frita? — Eh, o politicamente correto. […]

AMÍGDALAS

O silêncio que vocês estão ouvindo aí vem de mim. Eis que o espírito de Deus baixou sobre minha pessoa e, com a ajuda de alguns médicos de bisturis chamejantes, arrancou-me as amígdalas. Resultado, desde ontem sou uma espécie de burra de Balaão ao contrário: um quadrúpede que perdeu a fala. Amígdalas, a se crer […]

POR QUE LER ALBANO MARTINS RIBEIRO

Brasileiros típicos e aplicados ao principal esporte nacional, a repetição de clichês, consideram, claro, a crônica um gênero menor. O 0,001% (arredondado para mais) da população que pensa, pelo contrário, observa que Machado de Assis fez pouco mais nos livros da maturidade que encadear crônicas — em que se exercitou com maestria por décadas, mas o brasileiro […]

ESPELHO

Acordo de manhã cedo com a alegria própria das aeromoças da Gol, xingando Merleau-Ponty e toda a esquerda europeia por não existir ainda o regime de duas horas de trabalho — e os gênios da Mercearia São Pedro, só por hábito. Ao passar pelo corredor com esse ânimo próprio do William Waack em crise existencial, alguém me […]