POR QUE LER ALBANO MARTINS RIBEIRO

Brasileiros típicos e aplicados ao principal esporte nacional, a repetição de clichês, consideram, claro, a crônica um gênero menor. O 0,001% (arredondado para mais) da população que pensa, pelo contrário, observa que Machado de Assis fez pouco mais nos livros da maturidade que encadear crônicas — em que se exercitou com maestria por décadas, mas o brasileiro típico não leu as crônicas de Machado, por serem coisas menores, aplicando-se à leitura de sábios como Rubem Fonseca — para criar obras-primas da literatura universal. Se ele era um gênio com absurda capacidade de observação, meu brasileiro típico, me perdoe: eram pouco mais do que crônicas, falou-me Zaratustra.

Apenas dois escritores nacionais, também de acordo com o sábio persa, conseguiram a destreza britânica de Machado para enxugar palavras ao narrar detalhes do cotidiano, ainda que sem a psicologia e o charme do Velho: Fernando Sabino e Erico Verissimo. Agora o brasileiro típico cai no chão, sem fôlego e dando l’affreux rire de l’idiot de que fala Rimbaud, porque segundo o Manual Nacional de Incessante Repetição de Banalidades, Sabino é um escritor menor e Verissimo pai, um regionalista.

Seja, nem Zaratustra disse o contrário com relação ao primeiro. Apenas disse que ninguém seguiu Machado como ele, pinçando a palavra exata, construindo um fraseado sucinto e preciso, levando o modernismo — o verdadeiro modernismo, o da economia de traços, da elegância e do colorido de Modigliani — ao patamar de literatura, não por aplicar neologismos vagos e utilizar-se de recursos muito semelhantes aos da masturbação, como andam fazendo por aí há cem anos, mas por tratar de temas contemporâneos com termos exatos e movimentos firmes. Há quem prefira Rosa e o barroquismo histérico, digo, ibérico de nossa tradição. Eu fico com O Encontro Marcado.

Quanto ao segundo, meu brasileiro típico, Zaratustra apenas diz que há poucos escritores mais urbanos na literatura nacional, chama a atenção para o fato de que mesmo O Tempo e o Vento se passa quase que totalmente na cidade e segue adiante.

Sempre coloquei na conta da incultura pátria (falo da incultura dos que leem) o fato de só dois autores brasileiros terem conseguido seguir a tradição de Machado, enquanto a maioria tenta brincar de José de Alencar e Mário de Andrade. O que se escreve no Brasil atualmente, quando não é autoajuda, é lixo pior, por ter a pretensão que a autoajuda não tem. É subliteratura de tal forma fraudulenta que, em países sérios, tenho certeza, daria cadeia.

Eis por que, de tanto ver Calíope agarrada pelos cabelos e tratada com o cuidado de uma letra de Wando, desisti de procurar e passei a ler a Casa Cláudia como meio mais seguro de obter fruição estética.

Há cerca de dois anos, no entanto, encontrei, sem querer, o quarto homem da tradição machadiana, escondido num canto de blog semiabandonado, obviamente longe dos holofotes. O que, atualmente, se não é garantia de qualidade, já é meio caminho andado.

Descobri que o sujeito tinha um livro e o comprei, com medo de me decepcionar. Não me decepcionei. A reunião de crônicas seguia a tradição que os quatro solitários escolheram (Zaratustra insiste: são só quatro). Sim, porque Albano Martins Ribeiro é cronista, como todo escritor que se preza. Se vivêssemos tempos menos filistinos, pouco menos, e já não houvessem assassinado o último cronista com as tripas do último escritor, estaria enchendo as burras de dinheiro nos jornais. Mas os jornais preferem fazedores de palavras cruzadas, esses novos e geniais Oswald que encontramos nas esquinas de Parati.

Foi graças a Os melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone que conheci Albano e até suportei sua feiura inata, tudo em nome da literatura. O que me deixa à vontade para falar, porque essas observações disse a ele de viva voz logo no primeiro encontro (entre um grito e outro, pois eis que o sujeito, além de feio, é surdo).

Meses depois, ele lançaria o Incompletos. A capacidade cirúrgica de descrição, o humor fino, a elegância das palavras cuidadosamente escolhidas, as observações inusitadas, os diálogos brilhantes, tudo estava ali decuplicado e filtrado na reunião de contos. Livro como não se via na República do Clichê desde tempos imemoriais. Não é à toa que a “Ilustrada” não ouviu falar dele.

E era só o que deveria dizer, acrescentando: comprem os livros, se prezam a literatura, e vejam por vocês mesmos. Porém, para contentar ainda mais você, brasileiro típico que me lê, concedo: Albano está nos devendo um romance.

14 Comentários

  1. A priori (receba, sacana, uma expressão kantiana pelos mamilos logo de saída) pensei em fazer algum chiste. Afirmar que este elogio todo era sintoma de homossexualidade passiva (o que não deixa de ser verdade). Pensei também em destacar que as generosas palavras seriam uma retribuição ao empréstimo que Branco lhe fez e que você nunca pagou.

    Porém, a verdade que salva e liberta é uma só: Branco escreve direitinho.

    Só não entendo como o senhor, que é amigo e leitor do referido, não aprende com o exemplo. Eis um mistério mais bem guardado do que o terceiro de Fátima.

  2. Pelo jeito ele está cobrando os empréstimos.
    Puxasaco

  3. miltonribeiro · ·

    Guga, então tu não leste o Albano!

    Certamente, é o melhor escritor saído da Internet. É só conferir. O cara é genial.

    Abraços.

  4. Concordo… o Branco é fantástico. Deveriam obrigá-lo a escrever.

  5. “O Encontro Marcado” é um dos livros da minha vida. Sensacional.

    E sou mais um que não leu (ainda) os livros do senhor Branco Leone. Mas é que estou esperando, justamente, a recomendação da Ilustrada…

  6. Renato K. · ·

    Por que lê-lo? Respondo de cá: porque ainda que fosse ruim (o que não é verdade), ainda seria melhor do que assistir o time do Sport cobrando pênaltis.
    Assim não adianta a nossa torcida, Marconi!

  7. pessoal, venho fazer um mea-culpa. ainda nao li o livro do Branco.
    uma lacuna imperdoável que será sanada. vou adquiri-lo.

  8. pois eu mesma sempre achei que quem escreve ao estilo de Machado é você, Marconi! Juro que já tive momentos em que lia sem saber exatamente se o que estava ali diante dos olhos era teu ou do mestre do cosme velho. 🙂 Juro!

    Nunca li o Albano Martins Ribeiro. Mês que vem vou ao Brasil; daí compro. Dá uma dica do quê, e de onde, please!

    Anita

  9. também acho, Milton. Depois do Marconi.

  10. Fernanda · ·

    E por falar em clichês: viva São Marcos!…rsrsrsrs

  11. Nunca li. Escreve direitinho?

  12. Viva São Marcos!!!!!

    Hahahahahhahahahhahahahahhahahahahha

  13. […] dos piores) textos de Branco Leone que conheci Albano e até suportei sua … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

  14. […] Por que ler Albano Martins Ribeiro clique> Marconi Leal […]

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