PASTEL DE SANTA CLARA

BÊBADO 1: (Do nada, suspirando após uma prolongada pausa na conversa.) Não sei vocês, mas pra mim a vida após a morte só valeria a pena se houvesse pastel de Santa Clara.

BÊBADO 2: Isso é eufemismo pra sexo? Porque se for, eu prefiro o pastel da Julianne Moore.

BÊBADO 1: Não, não é eufemismo pra sexo. Aliás, Botticelli, Freud e os gregos que me desculpem, mas nunca entendi esses símbolos eróticos. O sujeito que confunde o órgão sexual feminino com um marisco, por exemplo, das duas uma: ou tá saindo com um desses novos tipos de sexo que andam inventando por aí ou com uma alemã de pouco asseio.

BÊBADO 3: Olha, não quero te decepcionar não, mas tudo indica que o protestantismo venceu. De modo que no Céu, atualmente, eles só devem servir um copo d’água. E morna.

BÊBADO 2: É, lá, por esses dias, o pastel de Santa Clara é conhecido como pastel de Clara, a Herege. Inclusive não vejo graça nesse doce, mas concordo com você em relação aos signos: quando leio esses poetas árabes se referindo à vagina como figo, acredito piamente no evolucionismo, porque obviamente os órgãos sexuais antes tinham outra forma. E dou graças a Deus que estejamos reproduzindo hoje com algo que, pelo menos, não tem dentes.

BÊBADO 1: Pode rasgar seu Confissões e, você, doe aquele seu exemplar de Plotino. Quem não entende o pastel de Santa Clara não entende metafísica. O pastel de Santa Clara é a síntese da vida, rapazes. O próprio Jesus Cristo, dizem, só atingiu a Verdade depois de comer um.

BÊBADO 2: Engraçado. Desconfiava que Jesus tivesse ido à Índia, mas definitivamente não sabia que tinha ido a Lisboa.

BÊBADO 3: Mas foi. Tá lá. Capítulo 3, versículo 4, Evangelho de Manuel Joaquim.

BÊBADO 1: Podem rir. Isso, vão rindo. Mas quando chegar a vez de vocês na fila dos condenados lembrem de mim. Eu vou tá na fila do lado, comendo um pastel de Santa Clara com meu amigo, o Nazareno. Provavelmente com uma camisa do Bangu. O próprio Zeus recomendou o pastel de Santa Clara, se vocês não sabem, gente sem cultura clássica. Tá lá em Homero, ignorantes.

BÊBADO 3: Hesíodo, na verdade. Eu me lembro. É naquela passagem em que ele se transforma em quibe para copular com um pastel de Santa Clara escondido de Hera.

BÊBADO 2: Como castigo, Hera condenou todos os quibes de boteco a serem feitos com óleo de duas semanas.

BÊBADO 3: O que acabou ocasionando a queda dos prepúcios dos árabes.

BÊBADO 1: (Revoltado.) Isso mesmo, riam mais. Riam bem, se acabem de rir. Mas fiquem sabendo que o próprio Proust só trocou o pastel de Santa Clara pela madeleine por uma questão de patriotada. Ele mesmo preferia o pastel, todo mundo sabe.

BÊBADO 2: Voltamos a falar de eufemismos pra sexo? Porque todo mundo sabe que Proust gostava mesmo era de um bom croquete.

BÊBADO 3: Roliço…

BÊBADO 1: Deixa pra lá. Bárbaros, canibais, pagãos. Garçom, mais uma rodada! (Muito sentido.) O pastel de Santa Clara ainda vai salvar a religiosidade, ateus!

um comentário

  1. Luiz Américo · ·

    Para quem ficou curioso, vai a receita:
    http://www.livrodereceitas.com/mineira/mine1817.htm

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