DE COMO ME VENDI AO SISTEMA

Sabem todos que minha ausência aqui se deve à mudança para o Rio de Janeiro, lugar de paisagem deslumbrante, que ainda possui, em meio à área urbana, inúmeros resquícios de vida selvagem. Caso, por exemplo, do trânsito e da fila de supermercado.

O que talvez não seja do conhecimento de vocês é haver outro motivo para tamanho atraso: me aconteceu uma tragédia inesperada e, ao contrário de grande parte de meus novos concidadãos, arrumei trabalho.

Em poucas palavras, me vendi ao Sistema em doze parcelas, virei roteirista de humor em uma emissora de TV.

Aconteceu de estar em casa outro dia, sem fazer nada, meditando sobre uma bobagem qualquer, como a dedução transcendental das categorias em Kant, quando o telefone tocou:

— Aqui quem fala é o Sistema.

— Olha, se é o Métrico Decimal, o senhor ligou errado — respondi. — Até hoje não sei transformar quilômetro em milímetro!

— Métrico Decimal é o… Eu sou o Sistema, rapá.

— E tá me ligando pra dizer que caiu?

Depois de desfiar uma série de palavrões, alguns dois quais me demonstraram a necessidade de reciclar meus conhecimentos em anatomia, ele me convenceu. Afinal, o Sistema, ninguém ignora, é uma criatura metafísica feia, suja e perversa, que nada tem a ver com o homem. Faz bico de diabo na Igreja Marxista das Boinas dos Últimos Dias, e de Deus, na Igreja Capitalista da Cédula Retangular.

— Que é que você quer? — perguntei. — Não me diga que precisa de dicas sobre mercado futuro.

— Tá a fim de negociar a alma? — cuspiu a alegoria.

— Não sei. O senhor daria quanto pela da minha sogra?

— Bom ver que você continua fazendo piadas do tipo. É justamente o que eu quero. Isso e uma massagem nas costas. Essa vida de Sistema me estressa. E aí, vai ou não vai? É pra trabalhar na televisão.

— Depende — hesitei. — Que outra concessão preciso fazer, além de desaprender português e conseguir arrancar gargalhadas de protozoários?

— Todas — falou ele.

E eu, superior:

— Se é assim, topo, claro.

Eis tudo. Após a intensa negociação, desliguei o telefone. Exausto, olhei para meu reflexo no espelho, que, parodiando Chico Buarque, cantava e se requebrava para mim, com sarcasmo:

— “Quem te viu, quem TV…”

Não deixei barato. Corri até o escritório, abri a gaveta da escrivaninha violentamente, enfiei a mão trêmula de raiva lá dentro, saquei um lápis de ponta bem afiada e, com um gesto irado, anotei o trocadilho.

Foi deles que passei a viver.

27 Comentários

  1. E não é que tu conseguiste alguém para pagar pela sua alma já tão, tão, tão… enfim, parabéns pelo ótimo negócio! Tá vendo, o curso com o Salin do “Saara” até não foi tão ruim assim!!!

  2. Ricardo C. · ·

    E o Tumbu tombou…

  3. Ah, esse Sistema. Sempre pronto a angariar umas almas a seu favor. Puta cara esperto! E ainda dizem que ele não funciona…rs

  4. Marconi Leal · ·

    Salim é um homem de visao. Foi ele o responsável pela substituiçao do diabo pelo Sistema. Isso quando não conseguiu convencer Jesus naqueles 40 dias de tentativas. Grande Salim!

  5. Marconi Leal · ·

    Que nada, Tumbu já se vendeu ao Sistema faz tempo. Como comerciante, quanto mais o criador tiver publicidade, melhor para ele.

  6. Marconi Leal · ·

    O Sistema de vez em quando cai, mas funciona, Camila. A não ser no Rio. Aqui, como já disse em algum canto, só o mar funciona com regularidade. E, ainda assim, ontem fui à praia e a areia tinha ligado para dizer que estava presa numa blitz e chegaria atrasada.

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  8. Ricardo C. · ·

    Eu é que não resisti ao trocadilho fácil, e o pior é que não registrei e nem ganhei nada do sistema…

  9. Marconi Leal · ·

    Não se preocupe. Como roteirista, já adquiri os hábitos da TV: registrei e vou roubar a ideia.

  10. Só resta agora divulgar seus trabalhos, assim nós poderemos malhá-lo, como fazemos cotidianamente com os vendidos… Abraços e sucesso! (de preferência traduzido em R$)

  11. Rsrsrsrs… Uma alma revolta se acalma facinho com o bolso cheio… Eu, no seu lugar, nem remorso sentiria.
    Agora o Zorra tem um roteirista que vale a pena…
    Abraços

  12. Ao povo pernambucano só resta chorar! Primeiro você se vende ao sistema, depois o Sport despenca para a segundona, acompanhado do maior rival, Nautíco! O nordestino não é mais um forte (ao menos estes de Recife não são!).

  13. Luiz Américo · ·

    Já tive essa recaida. Por pouco tempo e por muito pouco…pouco dinheiro, talvez tenha sido essa a minha falta de persistência. Pela pauleira que o pessoal que atualmente escreve para TV estão recebendo (medíocres), e seus textos tiverem a qualidade dos que aqui foram escritos, cê tá bem, mas repare, foi para poucos que aqui vêm, agora tens de alcançar um universo que pelo nível de exigência (tipo universitários do Teleban, digo Uniban, preconceituosos de todos tipos e formatos, sectários políticos de todos os níveis e procedências…) não vai ser fácil baixar a qualidade de seus escritos.
    Boa sorte, passo por aqui de três em três meses para colocar a leitura em dia.

  14. Parabéns, camarada. A estrela sobe.

  15. E não leremos mais postezitos? 😦 Boa sorte!

  16. Sim, havia uma época em que eu me considerada uma letrada.
    Era respeitada por pedagogas, dava palestras.
    Agora, vivo feliz em busca do gancho perfeito para o Silvino dizer pela milhonesima vez:
    “Mas isso é uma bichona!”
    E ainda falam de existências sem sentido.
    Vamos ligar para Leila Lopes.
    Ela não descobriu a luz do trocadilho.

  17. Marconi Leal · ·

    Toni, a parte mais divertida do trabalho é justamente o dinheiro: receber o contracheque é uma fonte inesgotável de gargalhadas.

  18. Marconi Leal · ·

    Uma pena de segunda mão, comprada em uma promoção de brechó…

  19. Marconi Leal · ·

    A analogia é perfeita, Fernanda: trabalhar na TV está para a arte assim como um atacante do Sport está para um artilheiro.

  20. Marconi Leal · ·

    Tô dando o melhor de mim para fazer o pior possível, Luiz.

  21. Marconi Leal · ·

    Vou tomar como uma ironia, Ramiro.

  22. Marconi Leal · ·

    Esta estrala aqui é uma supernova, companheiro Jens, com o saco prestes a explodir.

  23. Marconi Leal · ·

    Lerão, Luma. Nem só de trocadilhos vive o homem, mas de toda sinapse que produz o cérebro.

  24. Marconi Leal · ·

    Estás exagerando, Angelica. Nem tudo por lá é tão ruim. Algumas coisas, por exemplo, são péssimas.

  25. estamos bem!
    reveião por aí?

  26. Já estive por aí. Então não sei se te dou os parabéns ou pêsames.
    Mas vai fundo!

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