PULANDO ETAPAS

— Escuta, sei que a gente acabou de se conhecer, tá aqui nesse bar há, o quê, meia hora? Enfim, todo mundo sabe onde isso vai parar. Que tal a gente pular etapas e ir direto pra cama?
— Uhm… Um homem direto. Gosto disso. Uh! Ai! Uh! E então, foi bom pra você?
— Ahn?
— Nosso sexo. Confesso que achei monótono a princípio, mas depois você mexeu de um jeito. Sei que não se deve dizer isso no primeiro encontro, Pedro, mas, já que a gente tá pulando etapas, nunca tive um sexo tão bom.
— Jura? Você precisa ver quando eu tô presente, é uma loucura. Vamos indo?
— Bom, pena que depois do sexo você caiu de lado e dormiu. Homens! Ah, e esse seu hábito de roncar…
— Juro que só ronco quando não tô transando com uma pessoa pela primeira vez.
… talvez seja um empecilho pra nossa vida em comum. Ou você cura a rinite ou vamos ter que dormir em lugares separados.
— Eu no sótão, você numa camisa de força?
— Mas vamos nos encontrar à noite, de outro modo não nasceriam o Toninho e a Jéssica. Por que a cara de estranhamento? Passa tanto tempo fora que não lembra mais dos filhos! Você precisa ficar mais com nós quatro.
— Você, Jéssica, Toninho e seu psiquiatra?
— Não, o Fonfon, nosso beagle. Ele anda triste com sua ausência, sabia?
— Eu sei. Esses cachorros ilusórios são muito sensíveis. Escuta, acho que…
— Por falar no Toninho… Ele já te contou?
— Não me diga: tá sofrendo de falta de complexo de Édipo?
— Não, bobo. Não sabe que carreira seguir. Você pode falar com ele?
— Veja, o conselho que posso dar é o que dou a toda criatura inexistente que me procura: ocupe o cargo de Deus. Pagam bem, o sujeito não tem obrigação com horário, vive eternamente e pode sair com várias mulheres ao mesmo tempo.
— Puxa, me lembro como se fosse hoje: ele aceitou o conselho e virou um grande diretor de TV. Já a Jéssica, acabou envolvida com drogas…
— Coitada. Música sertaneja?
— Heroína. Nunca se recuperou de nossa separação. Tem cinquenta anos e ainda não conseguiu se achar.
— Já se procurou no mundo inteligível de Platão? Ouvi dizer que eles têm uma seção de achados e perdidos que é um arraso.
— Tenho medo, Pedro. E quando a gente morrer, o que vai ser dela?
— Vou pesquisar o assunto n’O Livro dos Seres Imaginários de Borges. Mas agora, me desculpe: esse sereno e eu com meus, o quê, oitenta anos? Se a Jéssica tem 50… Enfim, é capaz de eu pegar uma pneumonia. Preciso ir, viu? Engraçado, não lembro onde estacionei meu andador…
— Pobrezinho. A idade não perdoa. Lá vai ele… Completamente esclerosado, perdeu inteiramente o juízo.

6 Comentários

  1. Fernanda · ·

    Isso é que é “uma rapidinha”!

  2. ahahaha. hilariê.ôôô

  3. Inaiara · ·

    Foi bom?

  4. Marconi Leal · ·

    Eis uma frase familiar. Ouço o tempo todo da minha mulher.

  5. Marconi Leal · ·

    Guga, você é quase um mestre da música baiana. Quase, porque rolaram umas consoantes ali no meio, coisa que os gênios da arte abominam.

  6. Marconi Leal · ·

    Imagino que sim, Ina. Logo depois, o Pedro deve ter fumado um Hollywood sem filtro. E sem fumo. Bom, sem papel nem nicotina também.

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