ALONGAMENTO

Após esses quatro meses de ausência, todos devem estar curiosos para saber as novidades da vida de pai. E é sem rodeios que digo ser preciso ter um filho para dar total razão a Freud—e não apenas razão, como também inconsciente e subconsciente.

Sim, porque, nesses primeiros quatro meses de vida, meu herdeiro tem se dedicado com afinco à tarefa de me matar e, contaminado por uma versão mais traiçoeira do complexo de Édipo, escolheu como alvo preferencial minhas costas.

Desde que passei a carregar a cria nos braços dia e noite, minha coluna vem se vergando de tal forma que, darwinista convicto, temo estar involuindo (primeiro o cérebro, agora isso) e retornando paulatinamente ao filo Cnidaria, aquele de seres invertebrados como as anêmonas-do-mar, as hidras e o Aloízio Mercadante. Deem-me mais um ou dois anos e viro duas colheres de sopa primordial.

Anteontem, vendo que eu já analisava a proposta de trabalhar como acabamento em arco numa construção aqui perto—e adepta de atividades exóticas com o exercício físico e a ingestão de verduras—minha mulher sugeriu que eu fizesse alongamento. E se predispôs a me ajudar.

– Você quer começar a alongar por onde? – perguntou.
– Pelo pinto – respondi.
– A dor é local? – prosseguiu, desprezando minha resposta.
– Digamos que, se você quiser falar com ela, tem que usar DDD.
– Tudo bem. Estique o braço pra cima o máximo que puder.

Fiz como mandou e foi com orgulho que, após não mais que um ou dois minutos, toquei o tampo da mesa.

– Uhm. Vamos tentar uma coisa nova.
– Sexo? – quis saber, esperançoso.
– Vire o pescoço até encostar no ombro – continuou ela, mais uma vez sem me dar ouvidos. – Isso. Agora volte à posição inicial. À posição inicial, agora. Pode voltar à posição inicial. Você não tá me ouvindo? O que é que falta pra você voltar à posição inicial?
– Um… pé… de cabra.

Travei. E é assim que estou até agora: quando olho para frente, vejo o lado; para olhar para o lado, giro o corpo. Virei uma espécie de Ney Matogrosso que passou por uma experiência traumatizante com Super Bonder.

A coluna continua a mesma porcaria, mas as propostas de emprego melhoraram consideravelmente. Abandonei a arquitetura e já considero participar como pintura numa próxima mostra de Picasso.

8 Comentários

  1. Só posso te dizer que você ficou lindo na foto: http://www.flickr.com/photos/kennysarmy/4129499068/in/photostream/

  2. Puts cara, não tinha visto o post anterior.
    Meus parabéns, já cumpriste o sentido da vida – que é fecundar um óvulo maduro em uma mulher não necessariamente madura.

    Agora é só criá-lo até a maioridade e depois voltar o limbo existencialista da vida sem sentido.

    Parabéns!

  3. […] Leia mais. […]

  4. Marconi, meu caro, entendo perfeitamente, me identifiquei com o texto. Já esgotei todo estoque de salompas de João Pessoa. A próxima tentetiva será Pilates. Depois, lavo as mão…

  5. Marconi Leal · ·

    E esse não é meu melhor ângulo. Meu melhor ângulo, atualmente, é de 30 graus em relação ao solo.

  6. Marconi Leal · ·

    Sei não. O sentido da vida, até onde tenho conseguido deslindar, é limpar fraldas de cocô algumas vezes por dia.

  7. Marconi Leal · ·

    Minha teoria é que o Pilates é o último degrau da derrocada humana, vindo logo depois de dançar “Ele não monta na lambreta”, pelado, diante de uma multidão.

  8. Reciclagem tem limite:você está limpando as fraldas para reaproveitá-las?
    Espero que o Caio também esteja sendo limpo.

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