CARIOCA SAPIENS PERONOMUCHUS

Ao longo dos séculos os cientistas têm se debruçado sobre a questão de como o homem começou a falar, sem alcançar uma resposta definitiva. E isso por um erro epistemológico crasso: nunca perguntaram a mim.

Conhecedor das verdades ontológicas últimas e decifrador das letras de Djavan, obviamente sei como tudo se deu. E se não me manifestei até hoje foi por pura modéstia, mais um atributo de meu caráter imaculado.

Querem os preconceituosos fazer supor que a fala surgiu assim que a primeira mulher foi criada das costas de Adão. Eva teria olhado para o parceiro, que a fitava maravilhado, e, logo em seguida, suspirado e dito:

— Olha, acho que nossa relação tá em crise, hein? Não tá rolando mais aquela química. Senta aí nessa pedra que a gente precisa conversar.

Calúnia dos que querem esteriotipar a mulher como uma faladora irrefreável. Sabe-se que, quando a linguagem falada surgiu, ela não estava nem ao menos presente. Tinha ido a uma caverna vizinha e, alheia, fofocava com uma amiga na língua dos sinais.

Em minhas vastas e afanosas pesquisas, acabei por descobrir que, no período em que as várias espécies de Homo coexistiam na Terra — a exemplo do sapiens, do neandertalis e do sexual — apareceu uma criatura que escapou até hoje aos olhos dos paleontólogos: o Carioca sapiens peronomuchus.

Alguns querem crer que o Carioca sapiens peronomuchus é o elo perdito entre o bicho-preguiça e a arara, fato ainda não comprovado. O que se tem por certo é que esse estranho ser não caçava, não pescava, não conhecia a agricultura nem desenvolveu ferramentas. Reunia-se em bandos e tinha por atividade principal falar. Falar muito. Especialmente sobre assuntos que fugiam inteiramente a seu conhecimento.

Não sei precisar ao certo se o Carioca sapiens peronomuchus inventou a fala e só depois o pitaco ou se o pitaco precedeu a fala, sendo esta última possibilidade a mais plausível. Fato é que o Homo sapiens desenvolveu o aparelho fonador a partir do convívio com o Carioca, ainda que de forma imperfeita — ainda hoje nossa espécie é incapaz de emitir sons na mesma profusão de nossos professores.

Tampouco consigo explicar como o Carioca sapiens peronomuchus desapareceu. Uma hipótese é que o Homo sapiens, impaciente por natureza e cansado de tanta falação sem propósito, tenha descido o tacape na cabeça do outro, num movimento em massa que teria ocasionado sua extinção.

Outra, é que o Carioca sapiens peronomuchus se isolou dos humanos e se estabeleceu em algum ponto do litoral da América do Sul, existindo até nossos dias. O que me parece altamente improvável, dada sua natural repulsa à civilização

4 Comentários

  1. Hehehehe. Excelente.

  2. Bom, eu sou gaucho e moro no Rio.. e na verdade eu fico é com pena dos meus amigos cariocas q tem q aguentar nossa arrogancia gaucha.

  3. Ahahaha, pior que é verdade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: